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  Punta del Este
 

Caramelo

 

Outubro de 1998

 

Punta é assim: você chega de tardezinha e já é levado para o espetacular hotel Cumbres de la Ballena, no alto de um morro, para tomar um chá completo. A primeira coisa que trazem à mesa é um potinho de manteiga, devidamente acompanhado de um potinho de doce de leite.

 

É tanto sanduichinho e tanto bolo e tanto croissant com doce de leite, que de comum acordo todos resolvem trocar o jantar por um passeio pelo centro. Mas claro que, antes de voltar para a casa da Tetê e do Alemão, todos resolvem outra vez de comum acordo passar pela sorveteria Freddo e tomar uma casquinha de sorvete de doce de leite.

 

No dia seguinte, você acorda e é levado para o café da manhã da confeitaria Les Délices, onde você fica 15 minutos indeciso, olhando para a vitrine de doces, até acabar escolhendo um mil-folhas de doce de leite.

 

Na saída, o carro passa pela frente do Fragata, um dos restaurantes mais tradicionais da cidade, e seus anfitriões lembram que de noite é imprescindível voltar lá para experimentar as inigualáveis panquecas de doce de leite.

 

Mas antes disso tem o almoço, e a Letícia e o Chittolina fizeram reserva no mais charmoso e mais inventivo restaurante de Punta, o Los Negros, do badalado chef argentino Francis Mallmann. Ir uma vez ao Los Negros faz nascer uma vontade de voltar lá todos os dias -- não só para comer, como inclusive para morar. Pedimos de entrada salada de lulas tenras, confit de pato, e o melhor carpaccio de todos os tempos. Como prato principal, quase todos foram no filé de pescada em bandeja quentíssima de ferro -- um teppan-yaki, só que mais perigoso. De sobremesa, a unanimidade: um sublime, inacreditável, extra-sensorial flan de doce de leite.

 

Daí você acaba o seu flan de doce de leite, repete o seu flan de doce de leite, e vai sentar num sofá fofinho -- próprio para quem quer fazer a digestão contemplando aquele mar cor de doce de leite.

 

Esta noite sonhei que eu era uma aeromoça da Pluna. O meu nome (eu sei porque estava escrito no crachá) era Dulce de Leite -- e eu andava o corredor do avião de cima para baixo perguntando: "Aceita um churros?".

Ricardo Freire

 

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