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  Paris
 

Because my love is near

 

Dezembro de 1998

 

Tenho por Paris a afeição que as pessoas normais costumam devotar a Nova York, Londres ou Barcelona. Gostar de Paris, hoje em dia, parece ser uma espécie de perversão reservada aos muito sofisticados, aos muito afetados ou às muito peruas. Gostaria de esclarecer que eu (ainda) não me classifico em nenhuma dessas categorias.

 

O que me atrai em Paris não são seus restaurantes celebrados nem o vitrinódromo da rue du Faubourg Saint-Honoré. Na verdade, me satisfaço plenamente com pratos manjados de brasserie ou jantando nos vietnamitas mais vagabundos, e só entro em loja quando preciso comprar cartão telefônico.

 

Gosto de Paris pelos mais mundanos dos prazeres -- caminhar, ir ao cinema, tomar sorvete. Paris é indiscutivelmente o maior triunfo do urbanismo sobre a natureza, e eu, metropolitano convicto, dou uma passadinha aqui sempre que posso, para recuperar minha fé nos incríveis poderes curativos de andar na rua.

 

E põe andar nisso. A temperatura tem se comportado de maneira moscovita (máximas de 1 ou 2 graus Celsius todos os dias), o metrô está mais limpo do que nunca (só pode ter sido a Copa), mas eu só não vou a pé quando está chovendo. Pior: fico inventando os percursos mais longos possíveis, que me forçam a cruzar a cidade do jeito mais esbaforido (senão eu morro de frio). Com o quê, minha Paris é a mais deslumbrante esteira aeróbica do mundo. E o que é melhor: grátis.

 

Ontem, um sábado, depois de passar a manhã trabalhando no laptop aqui no meu hotel da île Saint-Louis, fui até a Chinatown do 13ème. arrondissement almoçar num vietnamita recomendado pelo Gault-Millaut (45 min) -- ângulos inesperados do Panteão no caminho. De lá atravessei a cidade para ver a exposição dos artistas trans-viados Pierre & Gilles que abriu numa galeria da avenue Matignon (1h30min) -- passando por uma feira livre perto da Sorbonne, pelas Tulherias, place de la Concorde e rue du Faubourg Saint-Honoré. Depois, duas sessões de cinema na cinelândia dos Champs-Elysées (7 min). De lá para um indiano perto da rua Montmartre ( 30 min) e então de volta para a île Saint-Louis (45 min) para começar a escrever este postal. Na próxima encarnação eu quero ser desses um ônibus de dois andares que fazem sightseeing.

 

 

Cinelândias

 

Qual a primeira coisa que passa pela sua cabeça quando você escuta a palavra "Paris"? Eu adoraria poder pensar "Torre Eiffel", "pirâmide do Louvre" ou "baguette debaixo do braço". Mas não. É só eu ouvir falar a palavra "Paris", que eu penso -- "oba, cinema!!!".

 

A gente esquece, mas foram os franceses que inventaram o cinema. Hoje em dia eles podem não ter os melhores cineastas, mas certamente têm os melhores espectadores. Graças a eles, Paris tem sempre mais filmes em cartaz do que qualquer outra cidade do mundo. Por trás dessa fachada falsa de Opéras, Notre Dames e Quais d'Orsays, a verdade é que Paris não passa de um imenso Espaço Unibanco.

 

É tanto filme que você perdeu, tanto filme que ainda não passou no Brasil, tanto filme que você nunca ouviu falar, que se bobear você não vê a luz do dia, deixando de lado as atividades mais essenciais do cotidiano, como por exemplo fazer as refeições, escovar os dentes e atualizar seu Website.

 

Para aproveitar esta Mostra permanente, tudo o que você precisa é de: 1) um Pariscope; e 2) uma semana em Paris. O Pariscope é de onde a Folha de S. Paulo copiou o "Guia da Folha". Sai todas as quartas-feiras, custa 3 francos  e, detalhe importante, não vem com a Folha junto. Uma semana em Paris é o tempo que você precisa para programar tudo o que quer ver, já que muitas das melhores reprises passam em pequenos cinemas de arte em apenas uma sessão por semana, tipo terça às 11h30 da manhã ou sexta às 10 da noite.

 

Então é deitar e rolar -- ou melhor, sentar e recostar a cabeça. Você pode montar seu cardápio misturando grandes produções americanas com obscuros filmes de festival, quem sabe até arriscando um desses filmes franceses que fazem o maior sucesso aqui mas que não passam em nenhum outro lugar. Mas o mais engraçado é ver filmes que em qualquer canto do mundo seriam filmes "difíceis" ou "de arte" serem lançados em grande circuito, em pé de igualdade com os medalhões de Hollywood. "Central do Brasil", por exemplo, foi lançado semana passada em 14 cinemas -- São Paulo tem três vezes mais habitantes que Paris, e eu não me lembro de "Central do Brasil" ter passado em 14 salas ao mesmo tempo.

 

Mas mesmo sem Pariscope, e mesmo sem uma semana em Paris, é possível tirar sua casquinha da cinefilia dos parisienses. Basta você se dirigir a qualquer uma das "cinelândias" de Paris (não é oficial, eu é que chamo assim). Nos Champs-Elysées (metrô: Franklin-Roosevelt), em St.-Germain (metrô: Odéon), em Les Halles (metrô: Châtelet-Les Halles) e em Montparnasse (metrô: Monpartnasse-Bienvenüe) você pode escolher entre no mínimo 30 filmes num raio de no máximo 300 metros. E se faltar ainda uma hora para a sua sessão, sempre tem um café charmoso com uma mesa estratégica esperando por você.

 

St.-Germain (e o vizinho Quartier Latin) é o antro dos cineminhas de arte que passam um filme diferente por sessão. Montparnasse (principalmente os cinemas mais perto da estação) é o pólo dos filmes dublados (atenção para a pegadinha: nunca entre num filme "v.f.", versão francesa). Até quem só vai a cinema em shopping vai achar sua praia em Paris: a cadeia UGC tem uma "ciné-cité" de 15 salas no shopping Les Halles, e dia 9 de dezembro inaugura um shopping só de cinemas, a Ciné-Cité UGC/Bercy, com 18 salas, servida pela moderníssima, e recém-inaugurada, linha 14 do metrô.

 

Eu sei o que você está pensando: mas para que viajar a Paris para ir ao cinema, quando você tem uma locadora do lado da sua casa? Eu respondo por mim: o caminho da minha casa até a Blockbuster não comporta nenhuma espécie de comparação com meu trajeto da île Saint-Louis até o boulevard Saint-Germain.

 

 

Chocolat et chocolat blanc

 

A ilha mais linda do planeta não tem praia, não tem coqueiro, não tem montanha nem atrativo natural de nenhuma espécie. Até pouco tempo atrás (coisa de uns 200 anos) ela não passava de um pântano e era conhecida como Ilha das Vacas.

 

Foi então que a nobreza da época resolveu encher a ilha de predinhos, todos bonitos mas nenhum particularmente memorável, que hoje abrigam, ao rés-do-chão (é como os franceses e os lusitanos chamam o andar térreo), lojas interessantes mas nenhuma assim terrivelmente famosa, restaurantes simpáticos mas em sua maioria desconhecidos, e hotéis bacaninhas mas nenhum de primeiríssima categoria.

 

Como se vê, a ilha mais linda do planeta tem o bom-gosto de ser também a ilha mais discreta do planeta -- o que com certeza deve ser o segredo do seu charme. Calma, recatada, introspectiva, a île Saint-Louis passa desapercebida do grosso (em todos os sentidos) dos visitantes a Paris. Mas quem anda meia horinha que seja pelas suas oito ruas e quatro quais não tem como discordar: é a ilha mais linda do planeta.

 

O que faz da île Saint-Louis um lugar especial é que, em primeiro lugar, trata-se de uma ilha cercada por Paris de todos os lados. Com suas ruelinhas, predinhos, restaurantezinhos, lojinhas e hoteizinhos, a île Saint-Louis é assim um bibelozinho de Paris. Só não se pode dizer que é uma miniatura de Paris porque lhe falta algum monumento -- um monumentozinho que fosse. Mas não seja por isso: os cafés do quai d'Orléans oferecem belíssimas vistas da catedral de Notre-Dame.

 

Sem estação própria de metrô nem lugar para estacionamento de ônibus, a île Saint-Louis conseguiu se manter a salvo do turismo predatório. Aliás, a única evidência de que se trata de um lugar turístico é o fato de você ouvir italiano e holandês e alemão e espanhol na rua o tempo todo.

 

Isso porque as lojas se dão ao respeito de não vender absolutamente nada que tenha "Paris" escrito -- apesar de estarmos a apenas uma ponte de distância de Notre-Dame, que é notoriamente um dos maiores centros mundiais de tráfico de souvenirs.

 

Eles são finos a ponto de manter um açouguezinho, uma merceariazinha e um supermercadinho na rua principal, só para a gente acreditar que a île Saint-Louis é de verdade, e não cenário. Hoje de manhã eu passei por duas senhoras que se cumprimentaram efusivamente dos dois lados da calçada -- "bonjour, madame!!!" -- como se fossem vizinhas! Só podem ser figurantes. Pensam que vão me enganar, é?

 

O footing acontece na rue Saint-Louis-en-l'île, que corta a ilha longitudinalmente, feito uma banana para fazer banana split. É aqui que ficam os hotéis (St.-Louis, US$ 120; Lutèce e Deux-Îles, US$ 150; Jeu de Paume, US$ 200; reserve com 2 a 3 meses de antecedência), as lojinhas (as mais bacanas: Pylônes, de presentes engraçados, e l'Épicerie, de condimentos e geléias), e o único restaurante classudo da ilha, o l'Orangerie, que só abre para o jantar e troca o menu todo dia.

 

Ao longo da rua, várias portinhas vendem sorvete de casquinha da casa Berthillon, tido e havido como o melhor de Paris (eu peço sempre "chocolat et chocolat blanc, s'il vous plaît"). A própria Maison Berthillon fica na rua, passando a esquina da rue des Deux-Ponts, mas sua decoração é tão sem-graça que é melhor entrar numa das filas em frente às portinhas e comer na calçada mesmo. Existem vários restaurantezinhos charmosos com mesas à luz de velas que você pode escolher de tarde e reservar para de noite.

 

E se passear na île Saint-Louis já é bárbaro, se hospedar aqui é o maior presente que um viajante a Paris pode se dar.

 

A 10 minutos a pé do bairro mais interessante da Rive Droite, o Marais, e a 20 do pedaço mais bacana da Rive Gauche, Saint-Germain-des-Prés, a île Saint-Louis é o centro geográfico perfeito para você se dedicar ao mais parisiense dos passatempos -- flâner, verbo que a língua portuguesa teve a elegância de incorporar como "flanar".

 

Você só precisa entrar no metrô para peruar nos Champs-Elysées, comer ostras em Montparnasse ou se aventurar pelos restaurantes étnicos do 13ème e do 20ème. Táxi, então, só na hora de voltar para o aeroporto. O que me faz lembrar de o meu táxi vai passar daqui a 4 horas e meia, e eu ainda tenho que dormir.

 

Quel dommage. Porque só existe uma coisa pior do que deixar Paris: deixar a île Saint-Louis.

Ricardo Freire

 

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