Foram os mordomos
Novembro de 1998

Muitos vêm a Assuã -- a cidade mais meridional do Egito, já em território núbio -- para iniciar seus cruzeiros pelo Nilo. Outros vêm para se bronzear no inverno; outros ainda para conhecer o lugar onde o Nilo é mais bonito. Eu não vim a Assuã por nenhum desses motivos. Eu vim a Assuã para me hospedar no Old Cataract.
Exótico, cavernoso, enigmático, o Old Cataract parece saído diretamente de um romance de Agatha Christie -- e é. Morte no Nilo foi escrito numa de suas suítes, e usado como cenário tanto do livro quanto do filme.
Mas não, o que faz do Old Cataract um hotel especial não é o seu currículo. O que torna inesquecível qualquer estada no Old Cataract é a sua localização, debruçado no Nilo, em frente à Ilha Elefantina, a vista emoldurada pelas dunas da outra margem. Coisa que talvez não significasse nada, se não fosse o seu estado de conservação. Intacto, com um ar de usado quando e onde necessário, o Old Cataract envelheceu com charme. Os banheiros foram modernizados, o que é sempre bem-vindo, mas as aberrações da arquitetura de hotéis pós-1940 estão todas fora do campo de visão do hóspede, confinadas no estrupício anexo, equivocadamente batizado "New Cataract".
O bar do terraço -- sem dúvida o lugar mais deslumbrante do hotel -- é todo colonial inglês, mas com panos folclóricos núbios servindo de toldo. O restaurante 1902 -- adivinha em que ano foi inaugurado -- tem pé-direito de teatro municipal e cenário de ópera, e talvez seja o lugar mais elegante onde eu já tomei sucrilhos com leite. Os feluccas (barquinhos tradicionais) que saem do seu ancoradouro para um chá ao pôr-do-sol no Nilo são os mais bonitos da corniche beira-rio.
Você pode passar dias sem sentir vontade de sair de lá. Aliás, a única razão para alguém sair do Old Cataract e andar pela cidade é querer achar tudo feio e sujo e ameaçador. Se bem que poucas cidades resistiriam ao julgamento de um hóspede do Old Cataract que saísse do hotel para dar uma voltinha na vida real.
Ricardo Freire
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