Naftalina
Setembro de 1998
Para seu conhecimento: não, o Danúbio não é azul. No máximo, é verde-escuro -- e olhe lá.
Mas só os mais pentelhos vão reparar nisso. A função do Danúbio em Budapeste não é ser nome de valsa, mas servir como desculpa para a construção de quatro pontes lindíssimas que ligam a montanhosa Buda à plana Pest. É tudo tão grandioso -- o rio, as pontes, o palácio em cima do morro em Buda, o parlamento à beira-rio em Pest -- que você se arrepende de não ter trazido seu helicóptero e sua câmera 180 graus.
Longe do Danúbio, a beleza de Budapeste é menos aparente. Budapeste é como se fosse uma mulher com um vestido chiquérrimo, porém puidíssimo. Tão puído que você demora para perceber que ele já foi chiquérrimo.
Não, não: melhor que isso. Budapeste é uma cidade que você acha num brechó. Você vai lá no brechó de cidades, cata, revira, fuça, e de repente, olha que maravilha: você encontra Budapeste.
Daí você pega Budapeste, mostra para as suas amigas, e ninguém acredita como você pagou tão baratinho por uma cidade tão esplendorosa. Mas, definitivamente, é uma cidade de segunda mão. Lindíssima, mas de segunda mão. Ótima para você jogar assim com uma cidade muito chique ou muito clássica, tipo Paris ou Viena, e dar aquela quebrada no visual.
E para você que esperava que depois de 10 anos de capitalismo Budapeste ficaria igualzinha a qualquer cidade grande da Europa, uma ótima notícia: não ficou, não.
O povo continua relativamente pobrinho, não se vêem manifestacões conspícuas de novo-riquismo ou de máfia russa na rua, e o comércio lembra muito o da Calle Florida (pré-Menem). A cidade conseguiu se ver livre do mau-gosto comunista, mas definitivamente não decidiu virar Barcelona da noite para o dia. O que faz desta Budapeste uma cidade muito interessante do que se resolvesse virar uma Barcelona da noite para o dia.
As telecomunicações húngaras estão superdesenvolvidas. Dá até para ligar do orelhão para o Brasil. Pois fui eu aproveitar o maldito avanço das telecomunicacões húngaras, telefonando de um orelhão para Pedro Paulo Sena Madureira, meu editor, quando me vi INTIMADO a voltar correndo, tipo ontem, para os preparativos de lancamento de meu primeiro livro, "Viaje na Viagem" -- abortando, desta maneira, o resto desta viagem.
(Tripulação, preparar para o desembarque.)
Ricardo Freire
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