Some like it hot
Janeiro de 1993
Debaixo de uma chuvinha bem chata, fomos empreender nosso tour por Little India — o enclave indiano, predominante tâmil (sulista), de Cingapura. O cheiro de esgoto misturado ao cheiro de curry nos deu uma prévia do que nos espera na Índia, daqui a vinte dias. Um de nossos objetivos era comer no Banana Leaf Apolo, um dos muitos restaurantes de culinária do sul da Índia em que folhas de bananeira interpretam o papel de pratos. (Como não temos certeza se teremos coragem de arriscar um desses na Índia, resolvemos matar a charada em Cingapura, onde as condições sanitárias são menos lotéricas.)
Funciona assim: você entra e eles te sentam numa mesa ainda cheia de restos mortais das refeições anteriores. Daí um homem com um balde de plástico vermelho na mão recolhe o lixo atômico e limpa a mesa com um pano nem um pouco cristão. Então chega outro e coloca uma folha de bananeira (nova? reciclada? vou saber...) na sua frente, como se fosse um jogo americano do Spa Sete Voltas. Ato contínuo, um garçom de gravatinha borboleta (gravata borboleta! numa circunstância dessas!) despeja uma montanha de arroz amarelo, uma porçãozinha de chucrute indiano e outra de beringela. Você pensa que é só, mas daí vem outro e inunda o arroz com o prato pelo qual a casa é famosa — fish-head curry, curry de cabeça de peixe. Depois ainda vieram colocar um pão tipo mandiopã, que a gente aceitou, e oferecer galinha, carneiro ou peixe, que a gente declinou.
Pois bem. Concentrados em vencer a primeira parte do desafio cultural — comer aquela nojeira com as mãos, perdão, uma mão só, a direita —, acabamos nos desligando das outras variáveis, e quase fomos nocauteados pelo principal: o curry. Per Krishna! Quantidades alucinógenas de pimenta.
Comer uma comida assim é como caminhar na areia fervendo, fazer sexo no elevador, tomar banho gelado no inverno, atravessar sinal vermelho a 100 por hora — ou seja, uma delícia.
O único efeito colateral é que as suas unhas ficam amarelas pelo resto da viagem.
Ricardo Freire
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