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Notícias de um regime

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, em 6/10/2000)

 

 

Conforme anunciei aqui há cinco semanas, estou metido num experimento científico que investiga a possibilidade de vida humana em planetas onde não existam carboidratos. 40 dias, dois furinhos no cinto e milhares de pacotes de cenourinhas baby depois, posso dizer que: sim, é possível. Mas não é mole, não.

 

Veja bem. Os povos antigos se dividiam entre comedores de pão e comedores de arroz. Daí descobriram a América, e levaram a batata e o milho para o Velho Mundo (a mandioca, não. A mandioca eles deixaram aqui com a gente. Realmente, nosso forte nunca foi a exportação). A batata salvou a Europa de muitas fomes. Graças a ela, várias sociedades atingiram seu ápice de desenvolvimento e inovação: os russos inventaram a vodca; os belgas, a batata frita com maionese.

 

Comer carboidratos é o que diferencia o homem do animal. Os outros bichos são ou (a) carnívoros ou (b) herbívoros. O homem, não. O homem é espaguetívoro, risotívoro, polentívoro, pãodequeijívoro, doritos-ívoro e brownie-com-sorvetívoro. Sim. O homem só chegou aonde chegou porque aceita couvert e pede sobremesa.

 

Voltar à dieta primitiva de carnes e verdes é claramente uma involução. Em última instância, constitui uma violência contra a nossa própria natureza animal. Se você assistir ao Discovery Channel com atenção, vai notar que nenhum bicho que você vê pastando calmamente na savana aparece na cena seguinte perseguindo veadinhos. Fazer regime significa pastar na savana e sair correndo atrás de veadinhos em todas as refeições. Não, isso não pode ser natural.

 

Mas, assim como tudo nesse mundo, também aqui existe um lado bom. Quando você entra num regime, começa a valorizar as coisas simples da vida. O PF, por exemplo. Você já reparou em toda a beleza contida num simples PF de botequim?

 

Um PF é pura poesia na forma de prato. O entrelaçamento perfeito entre arroz e feijão -- o caldo deste envolvendo inexoravelmente os grãos daquele. A farofa, tal qual uma duna, espalhando sem querer sua finíssima poeira sobre as ondas de macarrão. Ao mais suave movimento do garfo, respingos de extrato de tomate atingem de maneira displicente as batatas fritas -- algumas delas já sensualmente umedecidas pelo sumo terroso e irrefreável do feijão.

 

Fazendo regime você passa a sentir a fome do pobre. E a fome do pobre é infinitamente mais gostosa que a fome do rico. Pobre não tem fome de carpaccio. Pobre não tem fome de endívia nem tem fome de radicchio. Experimente dar sobras de sashimi para um mendigo, e é bem capaz que ele faça sashimi de você.

 

O regime é a única tragédia social da atualidade que não conta sequer com uma ONG para fazer estardalhaço em cúpulas econômicas. Você se lembra de ter visto alguma faixa dizendo FORA ASPARTAME IMPERIALISTA! nas ruas de Seattle ou na praça do relógio de Praga? E, no entanto, toda dieta nada mais é do que o receituário neoliberal, armazenado num tupperware e colocado na geladeira, a serviço do sofrimento da classe média.

 

Em nome do corte indiscriminado de gorduras se fazem sacrifícios humanos que nem em tempos de guerra seriam admissíveis. Todos os economistas que apregoam reduções radicais de tamanho e o corte abrupto de subsídios deveriam experimentar isso no próprio corpo.

 

Hoje, claro, livre de práticas comerciais viciosas -- como a compra casada de caixas de Bis preto e Bis branco, e o monopólio do Disque-Pizza no horário das 8 da noite em diante aqui em casa --, reconheço que começo a ganhar a leveza e a agilidade necessárias para competir no novo cenário mundial.

 

Ainda é cedo, no entanto, para investir no social. Antes que eu tenha atingido o downsizing planejado, manterei meu guarda-roupa atual, mesmo que isso seja socialmente condenável. Até lá, permanecerei cego e surdo a meus próprios apelos para minimizar a fome e evitar o fechamento de fábricas inteiras de Chandelle Chocolate Branco.

 

Enquanto isso, posso continuar descobrindo maravilhas da ciência, como o iogurte de morango com gordura zero. Você já experimentou iogurte de morango com gordura zero? É a maior invenção do homem desde... desde... desde a cenourinha baby.

 

Ricardo Freire

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