Manifesto antigerundista
  Diários portugueses
  Diarios de La Habana
  Diários paulistanos
  Diários parisienses
  Outros textos viajandões
  De foro íntimo
  Língua de fora
  Fã de carteirinha
  Gourmet acidental
  Textos consumistas
  Tecnocrônicas
  Textos dietéticos
  Crônicas GLSimpáticas

  Gourmet acidental
 

Colírio

 

(Xongas publicada originalmente em Época, em 10/11/2003)

 

 

"Cuidado, que essa é da boa!", avisa o garçom. Pronto. Já me irritei. Se eu pedi pimenta, é lógico que eu espero que seja da boa. Caso não quisesse da boa, eu teria pedido ketchup. Ou água com açúcar. Se eu aparento ter mais de 18 anos e pedi pimenta, é porque eu sei o que estou fazendo e posso muito bem arcar com as conseqüências do meu ato.

 

Imagine se, quando você pedisse o sal, o garçom dissesse: "Vai com calma, que esse é salgado meeesmo". Ou se de vez em quando a sua pizza viesse precedida pela seguinte advertência: "Cuidado, que essa é bem-feita!". Você aceitaria um café que não fosse "do bom"? Entretanto a maioria das pessoas tem uma quedinha toda especial por pimenta da mais-ou-menos, e chega mesmo a preferir pimenta da ruim.

 

Você conhece alguém que não goste de cigarro mas fume? Ou uma pessoa que não tolere carne e mesmo assim insista em pedir carpaccio? Pois pimenta é um produto estranhamente consumido por pessoas que detestam pimenta. Eu não teria nada a ver com isso -- afinal, cada um, cada um --, caso esse fato não prejudicasse a qualidade de minhas refeições. Meu problema é que eu gosto de pimenta, mas vivo num país em que o mercado de pimenta é totalmente voltado para quem não sabe o que é pimenta.

 

Sim. O brasileiro é o único povo exótico do planeta para quem a pimenta não é alimento de primeira necessidade. Em todos os outros países pobres do Terceiro Mundo, a má distribuição de renda, a insuficiência de educação, os problemas da área de saúde e a corrupção governamental endêmica são compensadas por um acesso universal e irrestrito à pimenta de boa qualidade. Aqui, não. Mesmo em Salvador, se você pedir para passar pimenta nas duas metades do acarajé, a baiana vai arregalar os olhos e sair gritando: "Pega! Tarado!"

 

Se você quer me fazer rir, basta repetir o bordão oficial segundo o qual São Paulo seria uma espécie assim de capital mundial da gastronomia. Quá, quá, quá. Continuaremos eternamente na Segunda Divisão da culinária global enquanto todas as cozinhas à base de pimenta continuarem sub-representadas. Num restaurante indiano, às vezes nem se ajoelhando na frente do maître você consegue que o seu jantar venha suficientemente picante. Quando alguém abre um restaurante tailandês ou mexicano, já vai esclarecendo para a imprensa: "adaptamos os temperos ao paladar do brasileiro". Obrigado. Prefiro ficar em casa comendo doce de leite com queijo Minas

 

Devemos ter herdado nossa inapetência por pimenta dos nossos colonizadores portugueses, que não são muito chegados. No entanto -- que ironia --, foram os navegadores portugas que levaram a pimenta vermelha da América para a Ásia. As poucas que ficaram por aqui são hoje usadas quase exclusivamente para fazer as fotos das embalagens dos nossos "molhos de pimenta" -- nome-fantasia usado por vinagres vermelhos de diversos graus de falta de ardência.

 

Fazer o quê? Pelo menos nossos restaurantes japoneses são verdadeiros. No auge da síndrome de abstinência, sempre dá para ir ao japa mais próximo e pedir uma montanha de raiz-forte à parte.

 

Ricardo Freire

Mais textos gulosos:

 
1 2 3 4 5 6 7 8 9