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Da desfaçatez dos pudins de laranja

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, em 30/3/2001)

 

 

Não, não tente achar duplos sentidos ou significados ocultos. O objetivo desta coluna é, sim, desmascarar os pudins de laranja -- e nada mais do que isso.

 

O que eu tenho contra os pudins de laranja? Tudo. A começar pelo sabor. Eu adoro pudim. Eu gosto de laranja. Mas eu detesto pudim de laranja. Porque um pudim de laranja não tem gosto nem de pudim, nem de laranja.

 

Existem outras coisas que eu detesto -- por exemplo: (a) torta de limão; (b) tartellette de damasco; (c) cheesecake de framboesa -- mas sem a mesma paixão. Detesto torta de limão de uma maneira fria e indiferente, sem nenhum envolvimento emocional.

 

Por um simples motivo: a torta de limão anuncia aos quatro ventos que é uma torta de limão. Você olha para ela e sabe que se trata de uma sobremesa azeda que vai estragar o seu almoço e (com o perdão da redundância) azedar a sua tarde. A torta de limão pode ser intragável, mas é honesta.

 

O mesmo não se pode dizer do pudim de laranja. O pudim de laranja é o mais perfeito dos travestis.

 

Um pudim de laranja tem aparência, cor e textura de um pudim de leite condensado puro. Um pudim de laranja estimula as suas papilas gustativas como um pudim de leite condensado normal.

 

Um pudim de laranja ativa todas as suas mais doces lembranças da infância, da adolescência e da fuga das piores dietas. Um pudim de laranja engana você até o contato fatal com a sua língua.

 

Então -- eca! Aquele gosto insuportavelmente azedo de pudim de laranja toma conta da sua boca, do seu cérebro, da sua corrente sangüínea, da sua alma, do seu passado e do seu futuro.

 

O choque do azedo do pudim de laranja que você pôs na boca com o gosto dulcíssimo de pudim de leite condensado puro que você tinha na imaginação provoca uma depressão imediata. Pudim de laranja devia sempre vir com um comprimido de Prozac.

 

O pudim de laranja é a expressão mais acabada de um conceito que eu não consigo (com o perdão do trocadilho) engolir: a sobremesa azeda. Sobremesa azeda não é sobremesa, é uma contradição. Uma perda de tempo. Um contra-senso.

 

Deus inventou a sobremesa para que a gente pudesse sair da mesa com um gostinho doce na boca. Como ousamos desobedecer o Criador -- perdão, o Chef?

 

Gente que põe sobremesa azeda na mesa quer que você engorde em vão. Um pudim de laranja tem a mesma quantidade absurda de calorias que um pudim de leite condensado puro. E no entanto, azeda sua boca. Você sai do jantar mais pesado e mais azedo. Não consigo ver a lógica disso.

 

Você até pode dizer que o conceito de sobremesa azeda é o mesmo do prato principal doce. Que eu faria melhor se tivesse investido essa coluna na demolição do arroz com passas, do pato com mel e dos canapés de presunto com fios de ovos.

 

O problema é que eu adoro prato principal doce. O prato principal doce consegue sintetizar a refeição em um ato. O prato principal doce tem o poder de fazer você dispensar a sobremesa. Por incrível que pareça, o prato principal doce emagrece.

 

Em último caso, você ainda pode catar todas as passas do seu arroz. Mas como que eu cato toda aquela laranja do meu pudim?

 

Além do quê, você viu as passas no arroz antes de levar o garfo à boca. E o meu pudim? Eu só vou descobrir que o meu sonhado pudim de leite condensado ortodoxo não é um pudim de leite ortodoxo quando já for tarde demais.

 

Tá bom. Não vou ser tão radical. Eu sei que tem gente que gosta. Tudo bem: podem continuar fazendo pudins de (argh!) laranja. Só me avisem. Me avisem!!!

 

Ricardo Freire

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