Outro dia eu li que uma deputada ia apresentar um projeto de lei para proibir mulher em propaganda de cerveja. Quer dizer: não era tão específico assim, mas o objetivo final era bem esse.
Infelizmente logo em seguida a guerra eclodiu no Iraque, relegando essas picuinhas legislativas para as notas de rodapé. É uma pena. Alguém aí sabe no que foi mesmo que deu a lei da obrigatoriedade da adição de fécula de mandioca na farinha de trigo?
Não que eu tenha alguma coisa a favor de mulher em propaganda de cerveja. Mas não tenho nada contra. Semana passada vi um comercial de cerveja com uma vovozinha. Será que vovozinha a deputada deixa? Ô gente preconceituosa.
Deputadas feministas incorrem num erro crasso: elas confundem pin-up com mulher. São duas coisas bem distintas. Pin-up é pin-up; mulher é mulher.
Funciona assim. Em publicidade nada é absolutamente verdadeiro. Todos os produtos são refeitos, retocados, maquiados. Você pensa que está vendo um picolé, mas na verdade está vendo uma maquete no palito.
Com as mulheres acontece a mesma coisa: quando é preciso provocar o apetite masculino, as mulheres são substituídas por pin-ups.
É a 'coisificação' da mulher, você vai esbravejar, repetindo os mesmos slogans normalmente publicados na seção de cartas dos leitores. Não faça isso. É feio.
Veja, por exemplo, o caso da Daniela Cicarelli. Se proibissem moças de biquíni em comerciais de refrigerante, ela estaria escondida em Belo Horizonte até hoje.
Revelar a Cicarelli certamente foi a coisa mais relevante que a Pepsi já fez pelo país. Nem mesmo as deputadas feministas mais rabugentas haverão de discordar que a Cicarelli é uma gracinha e ajuda a elevar o astral do Brasil.
De todo modo, com o perdão da figura de linguagem, o furo é ainda mais embaixo. Pin-ups são importantes e necessárias. Ocupam postos de trabalho e movimentam a economia.
Se as mulheres tivessem um mínimo de senso corporativo, não deixariam que acabassem com essa frente de trabalho. Sim, porque tem muita gente de olho nessa boquinha. Os homens, por exemplo.
Já reparou como tem cada vez mais barbado sem camisa na propaganda, na lateral dos prédios, na vida real? A pinapização do homem é um fato.
E no entanto os homens não ficam protestando contra a coisificação do corpo masculino. Nenhum de nós se sente um coitado porque não pode ser fotografado sem camisa ao lado do Paulo Zulu.
O que as deputadas de Brasília tinham que fazer era vetar o mercado da pinapagem a profissionais que não viessem equipados -- perdão, equipadas -- com o sexo feminino de fábrica.
Senão pode acontecer na categoria símbolo-sexual o mesmo que já aconteceu em outros campos. As mulheres é que cozinham, mas os homens são os grandes chefs. As mulheres é que costuram, mas os homens é que são os estilistas famosos. As mulheres é que são bonitas, e os homens é que têm permissão legal para aparecer pelados?
Pense bem antes de apoiar as trevas da proibição de mulheres em comerciais de cerveja. O mundo pode se transformar numa grande novela do Carlos Lombardi -- um monte de Humberto Martins de sunga e quase nenhuma Danielle Winitz para salvar a honra feminina.