Uma amiga (chef e dona de um restaurante que de vez em quando eu deixo escapar o nome aqui) me deu de presente de aniversário uma camisa do Alexandre Herchcovitch. Rosa e branca. Com listas horizontais (em alguns lugares) e transversais (em outros). Uma bonita camisa. Mas que não serviu. Não por culpa da minha amiga. Muito menos por culpa do Alexandre Herchcovitch.
A verdade é que eu fui feito, como diria?, numa modelagem um pouco estranha, que parece nunca ter estado muito na moda. Minha mãe deve ter errado no molde, meu pai nunca deu bola para essas frescuras mesmo, e eu acabei nascendo assim, inviabilizado para o universo fashion.
O que não seria problema, caso eu fosse o feliz proprietário de um manequim clássico. Ou de um tipo barato e popular, desses de balaio de centro da cidade. Mas não. Se o meu molde pessoal estivesse à venda, acabaria num saldão ou numa ponta de estoque. Para mim, uma roupa tem bom caimento quando eu desapareço embaixo dela. Pof! Aí eu compro. "Adorei essa camiseta cinza-escura com gola em V. Tem desaparecimento perfeito!".
Você já foi a uma praia de nudismo? Dessas freqüentadas por nudistas sérios, dedicados, compenetrados (e não por curiosos ou saidinhos)? Se você observar bem - discretamente, senão pega mal - vai ver que a aversão daquelas pessoas a roupas provém da constatação de que a moda não pode fazer muito por elas. Eu, por exemplo, daria um ótimo nudista sério, dedicado e compenetrado. Isto é, caso eu conseguisse suportar a idéia de nunca mais ter marquinha de bronzeado.
Definitivamente, eu não sou um cara fashion. Sou um sujeito "quéjual". Quer dizer: um sujeito quéjual, mas com uma sacola branca do Alexandre Herchcovitch há três semanas no banco de trás do carro. E uma amiga famosa me perguntando dia sim, dia não: "Como é, já foi trocar?".
Calma no Brasil. Não é fácil para uma pessoa como eu encontrar, no meu armário, e principalmente às 7 da manhã, uma roupa que sirva tanto para ir trabalhar quanto para passar na loja do Alexandre Herchovitch na hora do almoço. Sim, essa era uma questão que me atormentava. Com que roupa eu ia trocar minha camisa no Alexandre Herchcovitch?
Para mim parecia evidente que se eu aparecesse lá de camisa pólo azul-marinho, calça cáqui com pregas e uma sacola do Alexandre Herchcovitch na mão, todos os alarmes soariam à minha passagem pela porta -- já que estaria mais do que claro que eu tinha acabado de roubar aquela sacola de alguém na
esquina da Lorena. Pega trombadão!
Tive uma idéia. Já que minha amiga famosa toca seu restaurante famoso na hora do almoço, liguei para outra amiga, fashion até a medula. "Preciso de uma personal stylist", falei, escolhendo com cuidado as palavras. "Oba", ela falou, num tom de "oba" que eu só usaria para me referir ao buffet de feijoada do Rubaiyat.
Fomos. Vou resumir, em duas palavras: não doeu. Por incrível que pareça, a loja não tem um alarme anti-camisa pólo (na verdade eu nem estava de camisa pólo, mas tenho certeza de que me portei como se estivesse, o que dá no mesmo), e as vendedoras foram extremamente simpáticas.
O olho clínico da minha amiga fashion logo localizou uma camisa azul-petróleo muito bonita, mas que infelizmente me deixava com cara de alguém indeciso entre (a) se alistar na TFP ou (b) iniciar uma carreira de assassino serial.
Resolvemos então nos dedicar às camisetas, e não é que achamos três - não uma: t-r-ê-s! - que conseguiram ficar bem? Embaixo de nenhuma delas eu, pof!, desapareço, mas sei que a idéia fashion não é bem essa. "Se você quiser, a gente faz a barra das camisetas", a menina ofereceu. Barra das camisetas? Achei chiquérrimo. Nunca tinha passado pela minha cabeça que camisetas precisassem de barra. Ei! De repente, me dei conta de que todas as minhas camisetas precisam de barra.
Mas não, não deixei minhas camisetas para que fizessem a barra. Porque, se tivesse deixado, teria arranjado outro problema fashion na minha vida: com que roupa eu ia buscar minhas t-r-ê-s novas camisetas do Alexandre Herchcovitch?