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Festa das flores

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, em 23/10/2000)

 

 

Antes de ir ao supermercado, peguei a lista de compras deixada pela empregada. (Se ela não deixa uma lista, eu acabo só comprando baby cenourinhas, queijo branco e iogurte de morango com gordura zero.) Entre sabões em pó, cândidas e passebens, lá estava ele: Pato Purific Festa das Flores.

 

Isso é coisa que se peça para um patrão comprar? Pato Purific tudo bem, mas... Festa das Flores? Eu também tenho chefe. Eu também tenho superiores hierárquicos. Francamente, eu jamais faria um pedido como esse a alguém que me pagasse o salário.

 

Eu sei que o supermercado é o mundo da fantasia. Um lugar mágico onde as coisas têm brilho seco, azul polar brilhante, nova fórmula com enzimas amestradas e aminoácidos inteligentes. Mas, convenhamos: Festa das Flores é um pouco demais.

 

O que pode ter levado minha empregada a especificar "Festa das Flores" num corriqueiro Pato Purific? Será que ela pensa que eu sou tão incompetente assim, que nem o perfume do desinfetante do vaso sanitário eu posso escolher com a minha própria cabeça? E se eu não achasse? Poderia trazer qualquer outro Pato Purific? Ou teria que percorrer todos os outros supermercados da Grande São Paulo em busca de um legítimo Festa das Flores?

 

Infelizmente, minha empregada já tinha ido para a sua casa (na certa para tratar da sua própria lista de compras), e não poderia esclarecer esse item aparentemente tão fundamental na manutenção da limpeza de meu lar.

 

Pensando bem, nem é culpa dela, coitada. O pessoal da Pato Purific Worldwide (a essas alturas, certamente patopurific.com) é que deveria batizar seus produtos com nomes repetíveis em voz alta. Que tal: floral? Ou quem sabe: jardim? Eu sei que é meio batido, mas "primavera" já implica uma certa festa das flores, sem que você fique imaginando pétalas de desenho animado saindo do vaso sanitário e voando em direção ao basculante.

 

Tirando as vezes em que a fila do caixa está grande, eu posso dizer que adoro ir ao supermercado. Cada vez que eu passo em frente aos refrigeradores da Bonduelle e vejo todas aquelas ervilhazinhas, todas aqueles cenourinhas e todas aquelas couves-de-bruxelas que deixaram o interior da França para vir passar frio no Brasil, eu penso como a vida é irônica.

 

Todas as incongruências da sociedade estão lá. O fio dental está perto das escovas de dente -- mas longe dos palitos, pobrezinhos, que ficam isolados em outro corredor, ao lado dos guardanapos de papel. Passar em frente à seção de palitos é fundamental: enquanto houver Palitos Gina à venda, significa que o Brasil ainda não acabou.

 

E a seção de biscoitos? Nem que você dedique toda a sua existência exclusivamente ao consumo de biscoitos, dará conta de experimentar todas as novidades. (A não ser que você ande muito de ônibus. Qualquer pessoa que passe quatro horas por dia num ônibus -- duas para ir, duas para voltar --

acaba se alimentando basicamente de biscoito.)

 

Finalmente chego à seção de Patos Purifics. Leio todos os rótulos com atenção redobrada (fazer compras no supermercado equivale a duas horas de leitura - as embalagens costumam ter textos densos, profundos, cheios de significados ocultos nas entrelinhas). Opa. Deve haver algo errado. Não acho nenhum "Festa das Flores". Nenhum. Só "Natureza" e "Marine". Meu Deus. Não pode ser. Tiro os óculos. Enxugo o suor da testa. Tento mais uma vez. Xongas.

 

Passa uma funcionária. Preparo-me espiritualmente para perguntar se lá no estoque, escondidinho, não teria sobrado algum Pato Purific Festa das Flores. Bem na hora em que levanto a mão para chamar sua atenção, duas freguesas despontam no início do corredor. A funcionária olha para mim, mas eu aproveito a mão levantada para conter um espirro falso.

 

Eu sabia que isso não ia dar certo. Festa das Flores! E agora? Natureza ou Marine? Na dúvida, levo os dois. Se a empregada não gostar, ela que me demita. Dane-se. Eu não nasci para ser patrão, mesmo.

 

Depois de passar todas as compras, a caixa do Pão de Açúcar, como sempre, me pergunta: "Tem algum produto que o senhor não encontrou?". Penso duas vezes. Olho rapidamente para as pessoas atrás de mim na fila. Respondo com firmeza:

 

- Não, nada.

 

Ricardo Freire

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