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Em Sevilha, um barbeiro

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, no dia 30/12/2002)

 

 

Impávida, monocórdica e monoglota como um extrato de conta corrente por telefone, a guia da Praça de Touros conduz o penúltimo grupo do dia. Não importa o que diga em seu espanhol com pesado sotaque andaluz, ela tem plena consciência de que não será entendida por 75% de sua platéia itinerante.

 

Mesmo tendo pago os mesmos 4 euros que eu paguei, os franceses, alemães e americanos daquela sessão talvez não compreendam que a tribuna principal ali à esquerda é de uso exclusivo da família real, e que aquela saída que Señorita acaba de apontar na arena é a que leva o toureiro mais rapidamente à... enfermaria.

 

Depois dos cinco minutos de praxe para tirarmos fotos na arena vazia, o tour continua pelo museu das touradas. Dá licença para eu bocejar? Aquele é o colete de Manolito, aquela foto ali é de Joselito, aquele cartaz acolá homenageia algum outro ícone da numerosa família Lito.

 

Eu já estou procurando a saída, quando de repente meus ouvidos percebem alguma cor mais quente no discurso de Señorita. Volto meus olhos em sua direção, e ela está apontando para a cabeça empalhada de uma vaca, pendurada na parede. Sim, uma vaca! Trata-se da mãe do touro que, décadas atrás, teve a petulância de matar Manolito, ou Joselito, ou Gonzalito, ou Fotolito -- não consegui guardar o nome.

 

Segundo explica Señorita, reza a tradição que a morte de um 'matador' na arena deva ser implacavelmente vingada, com o touro sendo morto no mesmo dia por um outro toureiro.

 

No caso da morte de Joselito, ou Manolito, ou Pirulito -- não consegui guardar o nome -- a dor e a surpresa foram tamanhas, que o companheiro resolveu matar inclusive a progenitora do infeliz vacum, "para que não gerasse mais nenhum touro assassino".

 

Ei, peralá. Como assim? Os 'matadores' são artistas, e os touros que resolvem não atuar conforme o script e improvisam um pouquinho são 'assassinos'? Oba! Acordei!

 

Até aquele momento, Sevilha tinha me parecido muito linda, muito charmosa e muito chata. Não por culpa dela, claro. Eu é que tinha feito tudo ao contrário do que costumo recomendar.

 

Para começar, eu tinha chegado de carro numa cidade grande -- o que

costuma azedar o humor de qualquer viajante -- e tinha me perdido no labirinto do bairro judeu, onde estava meu hotel. Depois, eu teria apenas um dia para tirar um atraso de décadas.

 

Com exceção de lugares pobres e complicados, sempre digo que não se deve nunca programar uma estada apenas para o tempo justo de cobrir todos os cartões-postais do lugar. Os lugares só costumam ficar interessantes depois que a gente já cumpriu o nosso karma de turista -- que é o de refotografar todos os cartões-postais, só que contra a luz.

 

Todos os insights que você possa ter sobre um lugar só aparecem depois que você já fotografou todos os cartões-postais contra a luz, e então tem tempo para ter insights.

 

Graças a esse meu 'timing' equivocado, tenho uma desculpa para não oferecer nenhum ângulo original sobre Sevilha. Em compensação, consegui dar um passo adiante nas minhas ruminações sobre o esporte de viajar.

 

Digamos assim: existem os Lugares Que Você Precisa Conhecer. E existem os Lugares Que Você Não Precisa Conhecer. Depois que você começa a conhecer os Lugares Que Você Não Precisa Conhecer, devo dizer, os Lugares Que Você Precisa ficam bem menos interessantes.

 

Os Lugares Que Você Não Precisa Conhecer ficam tão surpresos com a sua visita quanto você. Depois que você passa por eles, você nunca mais é o mesmo -- e os lugares, também não.

 

Já Os Lugares Que Você Precisa Conhecer estão esperando por você há séculos, bocejando, e de olho no relógio. Quando você se atrasa demais, eles põem Señoritas monocórdicas para fazer as honras da casa.

 

Agora que eu não preciso mais conhecer Sevilha, não vejo a hora de poder voltar a Sevilha.

 

Ricardo Freire

 

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