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Venezianas

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, no dia 24/9/2001)

 

 

Só Meca deve ganhar de Veneza em número de turistas por metro (ou seria centímetro?) quadrado. A qualquer momento em Veneza sempre tem alguém atrapalhando a sua foto. Mas em compensação, é certo que você esteja atrapalhando a foto de alguém simultaneamente.

 

O que salva Veneza da disneylandização é a sua decrepitude. Você sabe que não está num parque de diversões porque a má conservação dos exteriores não é um efeito de cenografia, e o mau cheiro dos canais é real. Se Veneza ficasse nos Estados Unidos, já teria sido sanitizada -- ou simplesmente interditada.

 

Mas basta sair da Piazza San Marco (e de sua colônia de pombas erráticas, que transformam o cidadão na fila de entrada à basílica num figurante involuntário de um remake de “Os Pássaros”) e dos corredores principais (habitados lojas de souvenirs e trattorias especializadas em “menu turístico”) para descobrir praças, vielas e canais impregnados de beleza e paz.

 

O melhor de voltar a Veneza depois de conhecer o outro lado do mundo é que só assim você percebe o tamanho da influência oriental no caráter da cidade. Não é só Bizâncio, não -- é possível perceber até vestígios da Índia e do mundo árabe aqui e ali.

 

O venerável hotel Danieli, à beira do Grande Canal e a cinqüenta passos da Piazza San Marco, fica num palácio onde poderia morar qualquer marajá do Rajastão. Uma impressão ratificada pelos camelôs de quinquilharias bem embaixo da minha janela no segundo andar.

 

Na maré cheia, o fenômeno da “acqua alta” faz os canais transbordarem e passarelas de madeira aparecerem por toda parte. Enquanto a Piazza San Marco vai inundando, os violinistas da “terrazza”  do Café Florian não param de tocar. É como se você pudesse fotografar o Titanic justo quando ele afunda.

 

Ricardo Freire

 

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