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Frigobar, doce frigobar

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, no dia 20/12/2000)

 

 

Já se disse que a qualidade de um hotel -- qualquer hotel -- pode ser medida pelo club sandwich do room service. O frescor da alface que serve de enfeite tem muito a dizer sobre o rigor da manutenção; o índice de crocância das batatinhas é o melhor indicador do profissionalismo do staff.

 

Concordo com a teoria, mas tenho sérias restrições contra o método prático de avaliação. Para testar um club sandwich de hotel no meio da madrugada, infelizmente, é indispensável não apenas pedir, como ainda por cima comer um club sandwich no meio da madrugada.

 

Trata-se de uma experiência pantagruélica, que tem como efeito colateral empestear o seu quarto de cheiro de batata frita (um cheiro tão pungente que chega a ser calórico; você continua engordando só de estar exposto a ele). Além do quê, não consigo deixar de enxergar algo vagamente pornográfico no aparecimento súbito de um club sandwich no meio da madrugada no seu quarto de hotel.

 

Não. Proponho como indicador-padrão da qualidade de um hotel algo muito mais útil e ainda mais prosaico: o minibar -- conhecido entre nós pelo simpático apelido "frigobar". O frigobar é a única experiência gastronômica que une absolutamente todos os viajantes. É a companhia perfeita de viagem.

 

Quantos viajantes solitários não estarão neste momento detonando frigobares ao redor do mundo? Sem falar na importância mercadológica do frigobar na economia globalizada. Se não fosse pelo frigobar, a indústria do suco de maçã já teria fechado as portas nos cinco continentes, tirando o emprego de centenas de milhares de pessoas que jamais viram um frigobar na vida.

 

Mas não basta apenas a existência do frigobar. É necessário que ele seja realmente bom. Afinal, qualquer companheiro de quarto que fizesse à noite metade do barulho de um frigobar já teria sido despachado de volta para o lugar de onde veio. Já que o barulhinho do frigobar é a trilha sonora do viajante, que pelo menos o seu conteúdo valha cada um dos solavancos sonoros que fazem você acordar tantas vezes de madrugada.

 

Aí vai uma pequena, porém sincera, lista de componentes que jamais deveriam faltar no frigobar (pelo menos no frigobar do meu quarto).

 

Toddynho.  O item mais importante de qualquer frigobar. Porque o Toddynho retira o estigma de happy hour que envolve essa geladeirinha. Frigobar com Toddynho é um frigobar que a sua mãe arrumou para você levar na viagem. Mas só o original, please. Apesar de serem bons em pó, nenhum concorrente

pronto do Toddynho chega a seus pés -- ou a seu canudinho.

 

Amendoim japonês. Fora, batatinhas. Ao lixo com as castanhas de caju. Nenhum salgadinho satisfaz tanto quanto o amendoim japonês (até porque ele é o único salgadinho docinho). No exterior não existe -- mais um motivo para todo hotel brasileiro ter.

 

Coca Light. Você conhece alguém que tenha grana para se hospedar em hotel com frigobar e ainda continue tomando Coca normal? Além de indelicado, frigobar sem Coca Light é um atestado de falta de tino comercial, já que o hóspede comerá muito menos chocolates, muito menos castanhas e muito menos salgadinhos, pois, como se sabe, quando ingeridas sem Coca Light todas essas coisas engordam pra chuchu.

 

Água com gás. Mas com gás MESMO. É incrível como certas marcas interpretam de maneira frouxa e amadora a locução adverbial de sede "com gás". Se é para não fazer nem cosquinha, já existe a água da torneira. O viajante precisa sempre de água com MUITO gás, porque além de mais gostosa ela acaba substituindo um item que ele sempre esquece de colocar na mala -- o Sonrisal.

 

Toblerone. Pela fortuna que cobram os chocolates de frigobar, não se pode oferecer chocolates comuns. O mínimo que um frigobar pode dar em troca da minha conta astronômica é um Toblerone pretinho. De preferência, com um branquinho do lado.

 

Bebidas que abram. Depois do Plano Real, tudo no Brasil começou a abrir sem problemas: embalagens de biscoito, minipotinhos de manteiga, latas disso e daquilo. Só as tampas de garrafinhas de frigobar continuam trincando e causando cortes em partes muito úteis do seu dedo (na era do computador, não se pode mais ficar cortando dedo à toa). Para piorar, nenhum seguro-saúde cobre acidentes com garrafinhas de frigobar a mais de 50 km de casa. É pedir muito? Tampinhas que abram?

 

Ricardo Freire

 

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