O jipe passou na porta do nosso hotel exatamente na hora combinada: duas e quinze da tarde. O domingo estava esplendoroso no Rio de Janeiro, e só um maluco poderia trocar uma tarde de praia no Posto 9 por um passeio à favela da Rocinha. "Where are you from?", perguntou a guia. "De São Paulo", eu falei, numa resposta que deixou a moça totalmente desconcertada.
Subimos no jipe, desses de exército, com dois bancos inteiriços na carroceria, o toldo arriado. Ainda faltava passar em dois hotéis para pegar outros turistas, e a guia aproveitou o caminho para dizer, com pesado sotaque italiano, que não sabia o que falar sobre o passeio para brasileiros.
Bem-vindo ao Favela Tour, o programa turístico mais interessante do Brasil.
Por US$ 30, você é levado para um passeio pela Rocinha, com direito àquela vista acachapante que a gente só vê em matérias sobre desigualdade social no Rio.
Bom. A guia italiana não sabia o que falar para brasileiros, porque mais ou menos 120% dos passageiros são gringos. Mas, depois de ter feito o passeio, eu sei o que falar a brasileiros.
Lá vai.
A Rocinha é uma espécie de Beverly Hills das favelas brasileiras. Convenientemente localizada entre a Gávea e São Conrado, perto de bairros charmosos como Leblon e Ipanema, a Rocinha é uma ótima alternativa de moradia popular.
Aquilo que as Ilhas Cayman representam para os ricos, a Rocinha representa para os pobres: um paraíso fiscal. Ali você mora bem sem pagar água, luz, condomínio ou IPTU.
"Morar bem", logicamente, é algo relativo. Pode-se dizer que as pessoas moram bem na Rocinha em comparação a outros tipos de habitação popular - como, por exemplo, os quartos de empregada.
Se você entrar num quarto de empregada em Copacabana e numa casinha na favela da Rocinha, você vai ver que a casinha da favela oferece várias vantagens. Como, por exemplo, janela. Além de janela, as casinhas da Rocinha têm algo que os quartos de empregada não têm: lugar para
eletrodomésticos. Andando pelas vielas da Rocinha (pelo menos na parte gente-fina por onde andamos) você não cansa de ver televisores, aparelhos de som, máquinas de lavar, secadoras Enxuta.
Sem falar naquilo que você vê do lado de fora de alguns apartamentos e lojas: aparelhos de ar condicionado. Antenas de TV via satélite. Devem ser os emergentes da Rocinha.
A Rocinha é um lugar muito próspero. Não existem pedintes. Não existem moradores de rua. Ninguém entrega bilhetes onde se lê "estou desempregado vender balinhas por 1 real é o único jeito de ajudar minha família" etc.
Se você estiver passeando pela Rocinha e bater uma vontade súbita de conhecer o Nordeste, não tem problema. Você pode entrar na loja recém-inaugurada da agência de viagem Aéreo Rocinha e comprar seu bilhete para Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife ou Maceió.
Na área comercial da favela, o Largo do Boiadeiro, você pode fazer compras num minimercado com computadores nos caixas, ou tomar um sorvete de casquinha num quiosque do McDonald's.
Esqueceu alguma coisa lá em cima? Pegue um mototáxi. Existem 300 meninos motorizados que fazem trajetos da entrada lá em São Conrado até qualquer ponto do morro, por 1 real.
Pena que o passeio acabe lá embaixo, no acesso principal da favela, na avenida expressa que liga São Conrado à Barra, onde existe um camelódromo gigante. O camelódromo é horrível. Parece o de qualquer cidade brasileira. E eu não paguei US$ 30 para ver pobreza.