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Parisiense por uma semana

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, no dia 29/12/2000)

 

 

Adoro ler aqueles anunciozinhos de viagens em grupo que prometem oito países em dez dias. "Se hoje é terça-feira, então aqui deve ser a Bélgica", diz uma célebre piada americana a respeito dessas excursões (parece que fizeram até um filme com esse título).

 

Para fechar a conta, esses ônibus sempre arranjam um jeitinho de passar em (a) Andorra, (b) Liechtentstein ou (c) algum desses territórios russos que ainda aguardam reconhecimento internacional para suas declarações de independência. (Dica: se você conseguir cruzar a antiga Iugoslávia em um dia e uma noite, terá conhecido cinco ou seis países sem nem sentir.) Mas é bom não caçoar de quem pensa que pode fazer a Europa inteira num feriadão. Muito piores são aquelas pessoas que, do alto de uma pretensão e de um pedantismo sem limites, acham que ao programar longas temporadas num só lugar vão se livrar da pecha de turistas.

 

Pessoas como... eu, por exemplo. Disposto a experimentar o gostinho de viver como um parisiense de verdade, aluguei um apartamento em Paris. Por uma semaninha só, mas aluguei. Mesmo estando aqui há apenas três noites, já descobri: alugar um apartamento em Paris não faz de mim um parisiense de verdade. No máximo, me permite ter uma idéia aproximada do que é brincar de casinha em Paris.

 

Tive certeza disso na minha primeira manhã parisiense, quando, empolgado pelo livro de Jeffrey Steingarten que estou lendo ( "O Homem que comeu de tudo", divertidíssimo, apesar da tradução fraquinha -- ó Jeff Bezos, por que a Amazon foi falhar comigo justo neste Natal?), desci à padaria para comprar um "pain au levain" (feito com fermento orgânico). Antes de pedir, procurei o pão na vitrine. Lá estava ele, com plaquinha e tudo. Sorri para a atendente e pedi meu "pain au levain". Ela entendeu "pain aux raisins". Deus. Não, eu não sou um parisiense de verdade.

 

Em seguida, para completar o café da manhã, passei num "tabac" para comprar jornal. Peguei o "Libération" (que é tipo assim o JT de Paris) e o "Le Monde". Perguntei: quanto custa? Só então me dei conta de que um parisiense de verdade já teria feito a conta de cabeça. Mas o pior viria a seguir. Um parisiense de verdade jamais ficaria cinco minutos examinando suas moedas até descobrir qual valia o quê.

 

Pensando bem, um parisiense de verdade não moraria num apartamento cujo chão não range. Sim, o apartamento que aluguei é lindo, amplo, classicamente decorado, com eletrodomésticos novinhos, pé-direito incrivelmente alto, mas tem esse grave defeito: o chão não range. Como eu posso me sentir morando em Paris, se o chão onde piso não crec-crec-crec a cada passo meu?

 

A rua também não é lá das mais parisienses. Em vez de charuteries e mercearias e lojas de vinhos -- como toda rua parisiense de verdade deveria ter --, a rua é uma sucessão de lojas de bolsas e acessórios ( "maroquinerie") que vendem exclusivamente por atacado ( "n'insistez pas!", gritam os cartazetes nas portas).

 

Mesmo se eu me alimentasse costumeiramente de bolsas e acessórios no café da manhã, só poderia fazer minhas compras matinais nesta rua uma vez por mês, já que as lojas só vendem em grandes quantidades.

 

Para o meu sonhado café da manhã parisiense de verdade, eu preciso descer quatro quadras pela rue du Temple (repleta de lojinhas de bijuterias que vendem exclusivamente por atacado) até chegar à rue Rambuteau. O que não é de todo mau, já que são quatro quadras em que eu posso ir treinando a pronúncia correta de "pain au levain".

 

Um parisiense de verdade não teria perdido uma tarde inteira para conseguir reservas em dez restaurantes, como se não houvesse nada na cidade a fazer além de almoçar e jantar fora.

 

Até agora, apesar da garoa intermitente, tenho conseguido ir a todos os lugares a pé - para mim, Paris é a esteira ergométrica mais linda do mundo, e por isso só entro no metrô em último caso.

 

Mesmo porque, toda vez que me pego andando a 8 km/h, num frio de 1 grau, e sem me importar com o chuvisco que não pára -- nessa hora me sinto, ah, se me sinto!, um parisiense de verdade.

 

Ricardo Freire

 

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