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Um homeless em Paris?

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, no dia 25/12/2000)

 

 

Eu poderia ter feito como todas as pessoas sensatas, que juntaram família, agregados, cachorro e papagaio, colocaram tudo dentro de um carro e enfrentaram um engarrafamentozinho à-toa de seis horas até a beira do mar.

 

Se eu fosse uma pessoa sensata, a essa hora já estaria todo pimpão na praia, tomando sol (ou ignorando olimpicamente a frente fria que anunciaram para hoje) e devolvendo ao remetente as caipiroskas que, apesar de meu pedido claro e explícito, teimariam em vir com açúcar. Ou eu poderia ter feito como todo mundo que pode pagar para não ter incomodação nessa época do ano.

 

Bastaria ter reservado a tempo uma semana em algum dos grandes resorts do Nordeste ou de Angra. Nesse momento, em vez dessa pilha de nervos em que me transformei, eu estaria na minha, tranqüilo, observando o comportamento das famílias à minha volta -- e coletando material para fazer um inventário completo sobre a falta de educação da criança brasileira de zero a 23 anos.

 

Em último caso, eu poderia ter seguido o exemplo das pessoas verdadeiramente inteligentes, que sabem que NÃO SE VIAJA entre Natal e Ano Novo. Alguns -- poucos e bons -- sabem que entre Natal e Ano Novo tudo no Brasil fica caríssimo, cheíssimo e, se permitem, ruinzíssimo. De quebra, essas pessoas (você é uma delas -- parabéns) acabam aproveitando um dos dois únicos momentos verdadeiramente civilizados de São Paulo (o outro é o Carnaval).

 

Mas não. Eu não desci para a praia. Não reservei um resort. Nem achei melhor ficar em casa. Nada disso. Me deu a louca e resolvi ir para Paris. "E tá reclamando de quê?", você vai dizer. "Tá nervoso com o quê?", você vai resmungar. Isto é, caso você já não tenha parado de ler há dois parágrafos acima.

 

Explico. Estou nervoso porque eu não estou indo para Paris como as pessoas sensatas. Eu não liguei para o meu agente de viagens e pedi um hotelzinho simpático e bem-localizado. Eu não vou me hospedar na casa de algum conhecido. Nananina. Eu aluguei um apartamento pela Internet. Você deve imaginar que eu aluguei um apartamento em Paris pela Internet a partir de indicação de amigos, ou seguindo as dicas de uma revista quente. Quem me dera. Eu simplesmente entrei na Internet seis meses atrás, achei um apartamento gracinha numa região que eu gosto, e pronto, aluguei.

 

Você também se apaixonaria pelo apartamento que eu escolhi. Fica na rue Chapon (www.rentparis.com/2/2.html), entre o Marais e o Beaubourg. Tem 68 metros quadrados, sala, quarto, banheiro, toalete e cozinha. O living (www.rentparis.com/2/2living.jpg) tem até DVD - sem falar na mesa de jantar (www.rentparis.com/2/2table.jpg), onde eu vou poder escrever as três Xongas da semana que eu vou passar por lá. O quarto (www.rentparis.com/2/2bedroom.jpg) tem uma cama aparentemente fofíssima; a cozinha (www.rentparis.com/2/2kitchen.jpg), é toda equipada, e o banheiro (www.rentparis.com/2/2bathroom.jpg) tem duas pias, o que para mim é o luxo dos luxos. Tudo isso por muitíssimo menos do que custaria um

apartamento em qualquer bom resort brazuca.

 

Se tudo deu certo, hoje, ao meio dia do Brasil, eu já estarei instaladinho da silva, com as roupas penduradas no cabide. Mas... e se não der certo? E se tudo for uma fraude? Agora é tarde: já mandei metade do dinheiro. Para a França? O pior é que não: a conta dos proprietários fica nos Estados Unidos.

 

Em São Francisco. Na Castro Street (o lugar mais gay da América). Meu Deus. Será que eu vou ser mais uma vítima da famosa máfia gay do aluguel de apartamentos pela Internet? Não consigo mais domir. Olho para o meu voucher (enviado por e-mail) e leio o código do porteiro eletrônico (quatro números, uma letra) para me certificar de que o apartamento existe e vai ser

meu. Se não for, como arranjarei um lugar para ficar em Paris em pleno réveillon?

 

A CNN prevê neve para amanhã. Mas o Weather Channel só prevê chuviscos. Ah, bom. (Continua.)

 

Ricardo Freire

 

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