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A Ilha

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, no dia 22/2/2002)

 

 

O carnaval em Cuba só acontece em julho. Mas quando entramos no nosso quarto no Hotel Santa Isabel - o antigo palacete do Conde de Santovena, na Praça de Armas, restaurado nos trinques -, a música que subia da rua vinha de pelo menos três direções, num convite a descer imediatamente para a noite de Havana Velha.

 

As últimas três horas tinham sido atribuladas. Na sala de espera do aeroporto de Cancún, os 150 passageiros de um vôo para a Cidade do México passaram quarenta minutos disputando autógrafos e fotos ao lado de uma loira de telenovela. Menos de um quilômetro depois de sair do aeroporto de Havana, nosso táxi, um Peugeot 306, acusou um pneu furado.  ao chegar ao hotel, o computador tinha engolido nossa reserva.

 

Abrimos as portas da sacada. A música ficou mais alta - e só então pudemos ver que o quarto que nos tinham arranjado não dava para a praça, mas para uma viela escura, que o hotel dividia com um casarão decrépito com jeito de cortiço. O visual era puro 'Morango e Chocolate'. A música era totalmente 'Buena Vista Social Club'. Eram os orixás cubanos nos dando as boas-vindas.

 

Eu tinha feito planos. Se conseguíssemos chegar ao hotel até as onze da noite (mesmo com o pneu furado e a pequena confusão da reserva engolida, conseguimos), a idéia era sair num tour boêmio expresso - para delimitar o território, como fazem os cachorros e os astronautas.

 

A Bodeguita del Medio e o Floridita são o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor de Havana: seus maiores (e incontornáveis) clichês turísticos. "My mojitos in La Bodeguita, my daiquiris in El Floridita", escreveu Ernest Hemingway (um personagem quase tão cultuado na ilha quanto Fidel). Fazer do mojito da Bodeguita e do daiquiri do Floridita meu primeiro mojito e meu primeiro daiquiri em Cuba era a única maneira que eu via de dar algum lustro ao clichê.

 

Nas quatro ou cinco quadras entre o hotel e a Bodeguita, tivemos que resistir a pelo menos três bares com música ao vivo. Eu ainda não sabia que dali a quatro dias teria exaurido completamente minha capacidade de tolerar 'Guantanamera', por isso vou poder guardar para sempre aquele encantamento inicial de caminhar por um lugar com tanta boa música em oferta.

 

(A última vez que tinha me sentido assim foi há quase vinte anos, numa sexta-feira de carnaval em Olinda, em que os foliões eram tão poucos que dava para ouvir as orquestras de frevo.) A 3 dólares o copo, o mojito da Bodeguita custa 1/3 do salário mínimo do país; a única maneira de ver um cubano do lado de cá do balcão é convidando um. Mesmo assim, a Bodeguita tem um charme e uma autencidade difíceis de encontrar no resto de Havana Velha, cujos bares para turista - eu veria nos dias seguintes - abusam um pouco da cenografia.

 

No fim da noite, sem nenhuma excursão saindo pelo ladrão, a Bodeguita é um boteco adorável - eu ficaria tomando meus mojitos até o lugar fechar, se minha missão de cachorro astronauta não me obrigasse a estender meu território até o Floridita. Durante apenas um mojito, no entanto, foi possível apreciar o manuscrito de Hemingway (my mojitos, etc.), o pôster autografado de Diego Maradona e o cartaz informando dos  franchises da Bodeguita na Cidade do México e em Puerto Vallarta.

 

Da Bodeguita ao Floridita são mais umas seis ou sete quadras, de preferência pela calle Obispo, que é a rua do footing de Havana Velha. Ali, turistas de bermuda se misturam com os nativos - que, com a desculpa de que estão fazendo footing, aproveitam para oferecer informações, charutos, mulheres, ou todas as alternativas anteriores.

 

Se o Bodeguita é o protótipo  do botequim, o Floridita é o bar americano por excelência, conservado como um museu desde os anos 50. A única coisa que parece ter mudado por ali é o daiquiri - que agora é feito com gelo, no liquidificador. (Para tomar o tradicional, peça um "daiquiri antiguo". Se quiser sem açúcar, e com o dobro de rum, à maneira de Hemingway, peça um "Papa Doble".) A 6 dólares por taça, o daiquiri do Floridita custa 2/3 do salário mínimo nacional. Por isso, a única maneira

de ver um cubano do lado de cá do balcão é convidando um. Mesmo assim, o Floridita tem um charme e uma autenticidade difíceis de encontrar no resto da etc. etc. etc.

 

Pronto. Sobrevivemos aos clichês. No dia seguinte, estávamos livres para descobrir Havana.

 

Ricardo Freire

 

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