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Chaves de ouro

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde,no dia 8/1/2003)

 

 

O novo CD de Adriana Calcanhotto é o segundo mais vendido na Fnac de Lisboa.

 

Soube disso quando, por sugestão da Ana Carolina Ramos -- minha assessora nada aleatória para assuntos portugueses -- fui até o Chiado comprar 'Nove fados e uma canção de amor', o disco mais recente do maior fadista vivo de Portugal, Carlos do Carmo. "Vocês PRECISAM ouvir o CD do Carlos durante a viagem", ordenou ela no bilhete que nos deixou no hotel.

 

Não satisfeita em indicar hotéis, restaurantes e passeios perfeitos, a Ana Carolina ainda programa a trilha sonora das férias dos outros.

 

Acho que vou adotar isso nos meus guias de viagem. Vai ao Rio de carro? Enquanto estiver na Marginal, ouça Racionais MC. Na Ayrton Senna, ponha algum Titãs da antiga. Na Carvalho Pinto, Rita Lee. Na Dutra, Arnaldo Antunes até Itatiaia; depois, emende Marisa Monte e Luiz Melodia. Entre na Linha Vermelha ao som de Elza Soares -- o último, por favor.

 

Minha amiga, como sempre, estava com toda a razão, e Carlos do Carmo se revelou uma companhia musical perfeita para a estrada. (Até porque a caixa de raridades de Amália Rodrigues, que compramos junto, vinha com essa tecnologia rastaqüera antipirataria que impede o consumidor de ouvir seu próprio CD no carro.)

 

Além da beleza da música, das letras e da sua voz, Carlos do Carmo oferece ao ouvinte a beleza de sua prosódia. É possível entender absolutamente tudo o que ele canta -- o que jamais imaginei possível, em português de Portugal. O Madredeus, por exemplo, até onde eu entendo, canta em servo-croata. De vez em quando, vá lá, em romeno.

 

Acompanhados pela chuva que não parava e por Carlos do Carmo, deixamos Buçaco, nas imediações de Coimbra, e nos embrenhamos pelas estradas secundárias de Trás-os-Montes, em direção a Chaves, perto da fronteira norte com a Espanha.

 

O que fomos fazer em Chaves? Encontrar a Ana Carolina, ora pois, que lá estava com o Gabriel desde antes do Réveillon. O hotel, dessa vez, era o mais especial de todos, porque se tratava nada mais, nada menos do que o hotel DA Ana Carolina.

 

A história é assim: havia um antigo convento em Chaves que foi nacionalizado por algum rei português em priscas eras e se tornou um forte militar. Com a construção de uma outra base na região, o forte acabou abandonado. Foi então que o pai da Ana, António Ramos -- que, nas horas assim nem tão vagas, é presidente da Casa de Portugal de São Paulo -- há sete anos transformou o forte num dos hotéis mais charmosos de Portugal.

 

Confirmando meus piores temores, fomos recebidos nababescamente. No quarto, à nossa espera, havia um balde com uma garrafa de Vértice, possivelmente o melhor espumante produzido na Terrinha.

 

Chegou a noite e eu, que me gabo de percorrer hotéis por aí afora na maior discrição e sob total anonimato, me vi na cisterna do forte (transformada numa belíssima adega), sendo tratado por dom António e dona Selene a chouriços e alheiras e ao sublime presunto de Chaves -- uma iguaria para nenhum Pata Negra ou San Daniele botar banca.

 

Tudo regado por incontáveis garrafas de Quanta Terra, um tinto que confirma os notáveis progressos da... hic! acho que estou exagerando. O quê? Se eu recusar esse cálice de Adega Velha serei considerado mal-educado?

 

Felizmente as fontes termais de Chaves -- conhecidas pelos antigos romanos como Acque Flavie -- têm uma torneirinha que fica aberta durante toda a madrugada. Não há nada melhor do que um copo daquela santa água, que sai da Terra a 70ºC, depois de algumas garrafas de tinto e dois cálices de Adega Velha.

 

No dia seguinte, Dom António nos preparou um mapa para percorrermos as estradinhas mais verdes e passarmos pelas aldeias mais pitorescas, em que as casas são de pedra cinza e todas as mulheres vestem capas de feltro marrom.

 

Lá pelas tantas, nos perdemos, e em vez de chegar ao Porto fomos dar 40 km adiante, em Braga. Não entramos na cidade, mas ainda assim ficamos sabendo que quem nasce em Braga é bracarense, que nem o botequim do Leblon. Viajar é cultura!

 

Ricardo Freire

 

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