Já se disse, e não sem razão, que Portugal e Brasil são dois países separados pelo mesmo idioma. Mesmo quando usamos palavras idênticas, a formulação da frase vai ser diferente. Os lugares dos pronomes serão outros. Provavelmente, até os pronomes serão de consumo estritamente local.
Eu custo a crer que, ao declararem-se apaixonados, os portugueses e as portuguesas realmente digam: "Amo-te" (pronuncia-se 'ámot'). Não é coisa mais broxante, 'ámot'?
De 'ámot' para 'eutchiâmo" vai mais do que um Oceano Atlântico de distância. 'Ámot' provavelmente significa 'de jeito nenhum' em finlandês, ou 'estou gripado' em armênio, ou 'vade retro!' em basco. 'Ámot' é seco demais; 'eutchiâmo' já vem, digamos assim, com lubrificante.
Ninguém ainda fez uma declaração de amor para mim em Portugal, mas em compensação eu já fui, sim, tratado por 'Si'. "O que vai ser para Si?", perguntam os garçons (perdão, os 'empregados de mesa'). Acho esquisitíssimo esse 'para Si'. Sou mais o 'isso é de tu?' dos pernambucanos.
Todo brasileiro volta de Portugal dominando um pequeno vocabulário turístico (você sabe: cardápio é 'ementa', café da manhã é 'pequeno-almoço', banheiro é 'casa de banho'). Mas só os que se propõem a ler os jornais e ver TV vão enriquecer substancialmente o seu dicionário.
Dessa vez, por exemplo, aprendi que a capital da Tailândia é Banguecoque (pronuncia-se Bangkok) e que os portugueses são campeões ibéricos de râguebi (pronuncia-se râguebi). Ah, sim: e que 'de sempre' significa, em português de verdade, 'de todos os tempos'. Por exemplo: Lula foi eleito com "a maior votação de sempre". Bonitinho, não?
Na TV, descobri que, quando cometido numa grande área lusitana, um pênalti se transforma num 'penálti'. E que, na noite de 24 de dezembro, todas as crianças da Terrinha ganham 'prendas' de um velhinho de barbas brancas chamado 'Pai Natal'.
(Só agora me dou conta de que esqueci em casa a melhor companhia que existe para uma viagem a Portugal: o 'Schifaizfavoire', impagável dicionário português-português do Mário Prata -- que, na minha última estada por aqui, me foi mais útil que o Frommer's e o Fodor's, juntos.)
A maior prova da separação entre as duas línguas, contudo, reside no uso corrente, em Portugal, de expressões que no Brasil estão condenadíssimas. Somos tão metidos que já podemos ensinar o padre-nosso ao vigário.
Lembra o 'entrega a domicílio', que todos os gramáticos brasileiros dizem que está errado (o certo seria 'em' domicílio) e que, talvez por isso, tenha se transformado na vida real em 'delivery'? Pois aqui em Portugal se diz 'entrega AO domicílio' e está certíssimo. (Já o 'para viagem' em português de Portugal é... 'take away'.)
Ninguém aqui usa o odioso 'eu vou estar transferindo a sua ligação' (o gerúndio não é usado pelos portugueses nem mesmo em suas formas benignas) -- mas em contrapartida o 'a nível de' continua firme e forte, em todos os jornais.
Por incrível que pareça, as línguas dos dois lados do Atlântico convergme numa palavra em que tinham tudo para se desencontrar. Tanto aqui quanto aí, a virada do ano é conhecida por 'Réveillon' -- uma palavra pan-portuguesa, com certeza.
Passamos o nosso réveillon vendo a queima de fogos nas Docas de Santo Amaro -- uma espécie de Puerto Madeiro lisboeta. (Por que será que São Paulo é a ÚNICA grande cidade do mundo que jamais fez alguma intervenção urbana para transformar uma área degradada em zona boêmia?)
De lá fomos para o B. Leza, um clube cabo-verdiano animadíssimo, que funciona num prédio caindo aos pedaços. A música é ótima, mas não se entende nada do português cabo-verdiano, chamado 'crioulo'. Definitivamente, o crioulo que gorjeia por aqui não é como o crioulo que gorjeia por aí.