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Fialho, só amanhã

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, no dia 1/1/2003)

 

 

O ponto baixo de viajar a Portugal nesta época do ano é que às vezes você se vê vítima daquela piada do restaurante português que fecha para o almoço.

 

Tome-se o exemplo de Évora, uma encantadora cidade murada, 150 km a sudeste de Lisboa. Turistas vêm aqui para passear por suas ruelas e arcadas, para contemplar as ruínas do templo romano (supostamente dedicado a Diana), e para penetrar na mórbida Capela de Ossos da Igreja de São Francisco -- toda construída com caveiras e ossos desenterrados dos cemitérios da região, idéia de três franciscanos lelés do século XVI.

 

Gourmets acorrem a Évora por tudo isso, e por algo ainda mais importante: uma visita ao mitológico Fialho, um dos bastiões da cozinha portuguesa tradicional. Depois de quatro horas de viagem desde Sevilha, depositamos nossas malas na Pousada dos Lóios, olhamos no relógio -- hmm, uma da tarde! -- e fomos procurar o Fialho.

 

Sete minutos depois, demos com o nariz num cartaz que dizia mais ou menos isso (esqueci a formulação exata em português de Portugal): "Informamos à amável clientela que estaremos fechados durante as festas e reabriremos dia 2 de janeiro de 2003". Quase perdemos a fome.

 

Já o ponto alto de viajar a Portugal, nessa ou em qualquer época do ano, é que é impossível não comer bem.

 

De volta à pousada, pedimos uma lebre com feijão branco e um bacalhau à Brás que apagaram qualquer ressentimento que pudéssemos guardar por não encontrar o Fialho aberto. Nossa mesa tinha a mais bela vista que alguém pode ter na hora do almoço: a vista para um buffet de doces portugueses.

 

Instalada num antigo mosteiro em frente ao templo romano, a Pousada dos Lóios só tem um defeito: os quartos são as pequeníssimas celas dos frades. Entretanto, com 40 euros a mais e dois ou três meses de antecedência, é possível reservar uma das duas suítes -- um investimento amortizado pela chegada, não-solicitada, de uma cesta de frutas e uma garrafa de espumante português ao entardecer, por conta da casa. Como se diz por aqui: obrigadinho!

 

No dia seguinte, outra surpresa. Atravessar o Tejo pela Ponte 25 de Abril equivale a sobrevoar Lisboa. É uma chegada tão emocionante quanto a da Ponte Aérea no Santos Dumont. A ponte é tão alta, que eu tenho certeza de que vi da Torre de Belém ao Castelo de São Jorge -- de cima. É a primeira vez que eu aterrisso de carro em algum lugar.

 

Uma casa goesa, com certeza

 

Com todos os restaurantes lisboetas da minha lista fechados no domingo, resolvi voltar a um sujinho de Goa que descobri três anos atrás. Não me lembro mais como cheguei a ele. (Daqui a cinco anos vou acreditar piamente que estava passando em frente e resolvi entrar.)

 

De tarde eu tinha descoberto outro goês, às portas do Castelo de São Jorge (na minha religião, toda visita a Lisboa precisa começar com uma subida ao Castelo, no alto da Alfama, para de lá avistar a cidade inteira).  Felizmente, sua cozinha já estava fechada àquela hora. Sim, porque eu não gostaria de desperdiçar minha refeição goesa num restaurante que todo mundo pode achar.

 

O 'meu' goês fica numa obscura transversal do Largo de Santos, a rua São João da Mata, no número 41. Existe uma placa na porta, mas o que realmente chama a atenção é um freezer de sorvete Olá (a Kibon/Gelato deles) colocado na calçada.

 

Você entra no botequim, e precisa pedir licença para os bebuns habituês, que ficam tomando vinho barato de pé, no balcão, até chegar à salinha lateral, onde ficam as mesinhas com cadeiras de fórmica, toalhas de plástico e flores artificiais.

 

No cardápio, enxutíssimo, nada custa mais do que 5 euros. Repetimos o pedido da última vez. O 'chacuti de galinha' é um ensopadinho, só que com curry. O 'vindalho' (corruptela de vinha d'alho, e que normalmente aparece nos menus de restaurantes indianos com a grafia 'vindaloo'), um guisado de porco num molho de tomate, vinho, alho e pimenta que é o mais saboroso 'arrabiata' do mundo.

 

De lá -- e sem sair do tema 'ex-colónias' -- aproveitamos a proximidade para dar uma passadinha no (decrépito) clube cabo-verdiano B. Leza, para nos informarmos sobre o réveillon. Mas isso é assunto para sexta-feira...

 

Ricardo Freire

 

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