Manifesto antigerundista
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  Manifesto antigerundista
 

Em 2004, Gerundismo Zero!

 

(Xongas publicada originalmente em Época, no dia 29/12/2003)

 

 

As reformas passaram. Os juros começaram a cair. A indústria voltou a contratar. As vendas melhoraram um pouquinho. Já dá para comemorar? Não. Existe um grande perigo por trás de tudo isso. O quê? Não, não é a volta da inflação. Refiro-me à bolha do gerundismo.

 

Pense bem: quanto maior é a atividade econômica, mais negócios são fechados. Mais telefonemas são dados. Como conseqüência, mais gente tem a oportunidade de dizer coisas como: "Nós vamos estar analisando os seus dados e vamos estar dando um retorno assim que possível". Ou: "Pra sua encomenda tá podendo tá sendo entregue, o senhor precisa tá deixando o nome de uma pessoa pra tá recebendo pelo senhor". 

 

Pára! Pára tudo! Não é para isso que a gente se sacrificou esse ano inteiro. Crescimento, sim. Gerundismo, não! Mais do que nunca, precisamos nos mobilizar. Cada um de nós deve ser um agente sanitário eternamente a postos para exterminar essa terrível praga que se propaga pelo ar, pelas ondas de TV e pelas redes telefônicas.

 

E só existe uma forma de descontaminar um gerundista crônico: corrigindo o coitado. Na xinxa. Com educação, claro. Por incrível que pareça, ninguém usa o gerundismo para irritar. Quando a teleatendente diz "O senhor pode estar aguardando na linha, que eu vou estar transferindo a sua ligação", ela pensa que está falando bonito. Por sinal, ela não entende por que "eu vou estar transferindo" é errado e "ela está falando bonito" é certo. O que só aumenta a nossa responsabilidade como vigilantes e educadores.

 

O importante é nunca deixar barato. Se alguém vier com gerundismo para cima de você, respire fundo -- e eduque a criatura. "Não, eu não posso TÁ ASSINANDO aqui. Mas se você quiser, eu posso ASSINAR aqui, com o maior prazer". "Não, minha filha. Eu não vou TÁ EXPERIMENTANDO nada em provador nenhum. Eu vou é trocar de loja!"

 

Se você tiver habilidades de professor, pode ir mais fundo: "Desculpa. Não é 'a gente pode tá liberando o seu carro no sábado'. Você não deve usar nunca o verbo estar, no infinitivo, combinado com um verbo no gerúndio. O certo é 'a gente pode liberar o seu carro no sábado'. Entendeu?" O sujeito vai continuar sem entender nada, e depois dessa provavelmente o seu carro nem fique pronto no sábado -- mas é um preço que vale a pena pagar por uma sociedade sem gerundismo.

 

Toda atenção é pouca. Nesse período de tolerância zero com o gerundismo, precisamos evitar até mesmo os casos em que o "vou estar fazendo" esteja certo. Por exemplo: em vez de dizer "Não ligue agora para o seu tio, porque ele deve estar jantando" -- o que é perfeitamente correto --, diga: "Não ligue agora para o seu tio, porque é hora do jantar".

 

O governo poderia fazer de 2004 o Ano Oficial de Combate ao Gerundismo. Um bom começo seria proibir o gerundismo em todas as declarações do Executivo (presidente: metáfora, tudo bem. Gerundismo, não!). Gerundismo poderia dar pontos na carteira de motorista. Poderia aumentar a alíquota do imposto de renda do infrator. As universidades públicas poderiam inovar o sistema de cotas. Que tal: 100% das vagas para não-gerundistas?!!

 

Ainda estamos longe da erradicação do analfabetismo. Mas o fim do gerundismo só depende de nós. Não vamos nos dispersar!

 

Ricardo Freire

 

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