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Com certeza, uma epidemia

 

(Xongas publicada originalmente no Jornal da Tarde, em 26/6/2000)

 

 

Você deve se lembrar da terrível epidemia de cólera que, há mais ou menos uns cinco anos, deveria arrasar São Paulo. A imprensa não falava em outra coisa: a cólera estava devastando o Peru, e sua chegada ao Brasil era iminente. O ministro peruano da saúde tinha ido parar no hospital devido a um peixe cru comido ao vivo no jornal nacional deles -- e o telespectador brasileiro ficava imaginando quais ministros brazucas mereciam sorte semelhante.

 

As donas-de-casa correram às farmácias em busca de um novo gênero de primeira necessidade, o esterilizador de saladas. Os restaurantes japoneses ficaram às moscas e quase foram à falência coletivamente. O McDonald's estava para a lançar a McSalad e desistiu (e nunca mais se falou nisso).

 

E a cólera, nada de aparecer. Pela primeira vez na história, a cidade inteira estava preparada para enfrentar uma epidemia, e ela nem tchuns. Decepção. Anticlímax. Revolta. Não sei como o sindicato dos sushimen não entrou com uma queixa no Procon contra a imprensa.

 

Pois bem. Com toda a atenção voltada para a cólera, acabamos não reparando numa outra doença que insidiosamente foi se alastrando por toda a população. Naquela época ainda eram poucos os que sofriam desse mal -- talvez muitos fossem apenas portadores assintomáticos. Hoje, não. Hoje pode-se dizer que se trata de um dos maiores problemas de saúde pública do país.

 

Estou falando da epidemia do "com certeza".

 

Confesse: você também está contaminado. A todo momento, sem nenhuma razão especial, você solta um "com certeza" como resposta afirmativa para qualquer coisa. É incontrolável. Você tomou café da manhã hoje? Com certeza. O Palmeiras merecia ganhar do Boca? Com certeza. Maluf vai perder a eleição? Com certeza.

 

Diferentemente de outras doenças de linguagem, o vírus do "com certeza" não foi espalhado por nenhuma novela ou campanha de publicidade. Nunca foi bordão de programa humorístico, nem frase célebre de algum político imexível. A única pessoa pública a usar o "com certeza" como marca registrada é a apresentadora Leda Nagle -- mas um talk-show diurno na TVE é muito pouco para que ela seja condenada como a única culpada. O "com certeza" simplesmente pegou.

 

Até antes da epidemia do "com certeza", os brasileiros tinham o maior repertório de respostas afirmativas do planeta:

- É.

- Foi.

- Vamos.

- Posso.

- Recebeu.

- Anrã.

 

O leque de possibilidades era tão grande, que raramente a gente lançava mão da resposta afirmativa dos sem-imaginação, o "sim". Para que falar "sim", se a gente podia responder "gostei", "fui" ou "quero"? Mas agora isso é passado. Porque só sabemos responder "com certeza".

 

Se isso pelo menos fosse um sinal de que temos alguma certeza de qualquer coisa, tudo bem. Mas continuamos sem certeza de nada. 80% dos "com certeza" que saem de nossa boca são puro chute. Vai chover amanhã? Com certeza. O trânsito está livre? Com certeza. Dá para chegar até Campos com essa gasolina? Com certeza.

 

A coisa está ficando tão grave, que daqui a pouco o Você Decide vai ter dois telefones -- um para o "com certeza", outro para o "não". Os cupons de compra pelo reembolso postal vão começar com o texto "COM CERTEZA! Quero receber em minha casa...". "Responda sim ou não" vai virar "Responda com certeza ou não".

 

Ainda não se sabe como o "com certeza" atua no cérebro -- desconfia-se que se instale no sistema nervoso parassimpático, controlando todos os músculos involuntários -- mas existe o temor de que, dentro de poucos anos, o "com certeza" se transforme na única resposta que sejamos capazes de dar para qualquer pergunta.

 

- Você prefere os ovos fritos ou mexidos?

- Com certeza.

- Para onde você vai depois de amanhã?

- Com certeza.

- Qual é o seu nome?

- Com certeza.

 

Antes de isso acontecer, com certeza , já teremos perdido para sempre a palavra "não"-- substituída, é claro, pela locução "sem certeza".

 

Ricardo Freire

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