Chega a segunda-feira e o paulistano volta a seu passatempo favorito: trabalhar. Por que gostamos tanto de trabalhar nessa cidade?
Xongas explica. Tirando algumas profissões (como taxista e calouro de universidade pedindo esmola no farol), o tempo que você passa no trabalho é, por exclusão, um tempo que você não passa no trânsito. Por pior que seja seu ambiente de trabalho, você nunca vai estar prestes a se divorciar de nenhum colega de departamento, e seu computador do escritório estará permanentemente fora do alcance das crianças do primeiro casamento da pessoa que mora com você. Sem falar que só mesmo trabalhando você pode ter acesso a benefícios trabalhistas muito interessantes, como por exemplo sair de férias e poder ficar 30 dias sem trabalhar.
A seguir, uma pequena lista de profissões tipicamente paulistanas -- que são as que proporcionam maior sucesso financeiro e realização pessoal.
• Manobrista
Profissão indicada a todos que desejam algo mais que um trabalho: uma fonte incessante de test-drives. A rotina da profissão é simples, e pode ser dividida, grosso modo, em dois movimentos. O movimento (1) consiste em pegar o carro do cliente e sair cantando pneu em busca do recorde mundial de velocidade entre o restaurante e o estacionamento (cinco quadras, três sinais amarelos, oito finas e quatro freadas bruscas adiante). O movimento (2) se resume a fazer o trajeto de volta na velocidade mais lenta possível, de modo que aquele trocadinho que o cliente desembolsar na hora que você devolver o carro não seja visto como uma gorjeta cara, e sim como um resgate barato pelo seqüestro interminável de seu carro. Com pouquíssimo tempo de profissão você vai poder comprar seu próprio automóvel. O difícil é achar uma concessionária que aceite tudo em notas de R$ 1.
• Decorador
Você sabe colocar um sofá em frente a uma mesinha, arredar um baú sem arranhar o assoalho, fazer compras na Forma sem trocar os nomes dos designers, jogar mantas displicentemente sobre poltronas recicladas? Ótimo: São Paulo precisa de você como o sertão do Piauí precisa de chuvas. Numa cidade com exteriores tão mal cenografados, não é de espantar que os decoradores de interiores sejam tão valorizados. A rotina é um pouco estressante, porque além de fazer projetos de decoração você tem que aparecer em todas as revistas, viajar a Nova York, dar seu testemunho em comerciais de televisão, viajar a Nova York, assinar linhas de produtos de todo tipo, viajar a Nova York, ajudar a conceituar restaurantes em que a decoração sempre vai ser mais importante que a comida, e viajar a Nova York. Mesmo assim, a profissão vale a pena, porque você fica famoso e ainda ganha muitas milhas na sua companhia aérea favorita.
• Motoboy
A primeira profissão de muitos jovens habitantes de São Paulo e, em muitos casos, a última também. É uma boa escolha para quem não esteja mesmo planejando viver muito tempo na cidade. Para exercer esta profissão é necessário muito sangue frio -- às vezes por meio de transfusão. Cuidado com os espelhinhos laterais dos carros: dá azar quebrar um número ímpar deles num mesmo dia.
• Publicitário
Quem apareceu primeiro, a publicidade ou o publicitário? Em São Paulo não se sabe quem apareceu primeiro, mas se sabe quem aparece mais: o publicitário, sem dúvida. Antes que você condene o exagero da autopromoção dos publicitários paulistanos, deve-se lembrar que em nenhuma outra profissão existem tantas pessoas dispostas a provar do próprio remédio com tanta freqüência. Não se sabe de cirurgiões que se submetam a cirurgias complicadas dia sim dia não, nem de arquitetos que construam novas casas para si mesmos semanalmente, nem de videntes que consultem o tarô todas as manhãs antes de fazer a barba. Mesmo no caso de você não se dar muito bem criando anúncios, você pode acabar tendo uma segunda chance numa carreira menos badalada, como por exemplo colunista metido a engraçadinho.
• Vigia
Uma carreira apropriada a todos que não gostam do que fazem de dia, e queiram se realizar profissionalmente num segundo emprego à noite. Trata-se do único emprego do mundo em que você é pago para dormir. Por que os paulistanos pagam pessoas para dormir sentadas? Porque existe uma superstição segundo a qual o ronco de vigia espanta mosquitos, maus olhados e assaltantes. Para o profissional é um ótimo negócio: além de economizar em aluguel, o sujeito ainda poupa longas viagens à periferia, podendo acordar cedinho na sua guarita e ir direto para o trabalho -- geralmente, outra portaria para cochilar de dia.
• Restaurateur
(Res-tô-rra-térr). Para abrir um restaurante você precisa de: uma endívia, um radicchio, duas mandioquinhas próprias para purê, uma costeleta de cordeiro, uma posta de salmão e três cebolinhas carameladas -- apenas para a eventualidade (raríssima) de um cliente seu pedir alguma coisa que não seja macarrão ao sugo ou filé com fritas. Nenhuma profissão mexe tanto com o mercado de trabalho paulistano, porque quando alguém decide virar restaurateur, tem sempre que contratar um decorador (vide acima), quatro ou cinco manobristas (vide acima) e encher o salão de publicitários (vide acima). Se o negócio der certo, você deve também contratar um vigia (vide acima) e, caso venha a fazer "delivery", montar uma equipe de motoboys (vide acima).