SÃO PAULO FASHION HOTEL
Meio monumento, meio teatro, meio festa,
o Unique é o hotel mais divertido do país
Por Ricardo Freire
(Matéria feita originalmente para a Viagem & Turismo em julho de 2003)
Para começo de conversa, o prédio não é apenas um prédio: é uma intervenção urbana. Da prancheta do arquiteto Ruy Ohtake brotou uma gigantesca fatia de melancia, esculpida em concreto e sustentada por um pedestal envidraçado. Mentes férteis, como a minha, chegam a imaginar que as janelas, redondas, fazem o papel de caroços. Caroços enormes, simétricos, vazados -- mas caroços.
Gosto de intervenções urbanas, porém devo dizer que jamais passou pela minha cabeça hospedar-me numa. Sempre defendi a arquitetura pós-moderna do centro cultural Georges Pompidou, em Paris (o popular Beaubourg), mas nunca achei que aquilo pudesse virar um hotel. Até hoje não fiquei tête-à-tête com um edifício mais impressionante do que o Museu Guggenheim de Bilbao, mas não sei se gostaria de passar uma noite ali. Mesmo porque, de uma maneira geral -- como qualquer pessoa que tenha entrado numa obra do grande Oscar Niemeyer pode atestar -- essas esculturas disfarçadas de prédios costumam ser bem mais interessantes por fora do que por dentro.
Assim, devo confessar que minha maleta estava carregada de ceticismo quando atravessei a altíssima porta de entrada e me vi no saguão monumental do Hotel Unique, em São Paulo. A primeira impressão, no entanto, não poderia ser mais positiva. Procurei pelo balcão de check-in, que na minha imaginação seria comprido, futurista e intimidante, mas no lugar dele deparei com: (1) uma mesa, em escala absolutamente humana; (2) duas poltronas clássicas, Luís-alguma-coisa, com encosto de palhinha; e (3) em cima da mesa, um balde de gelo refrescando uma garrafa de Moët Chandon. Preencher a ficha de hóspede confortavelmente sentado, e ainda por cima bebericando um gole de champagne francês a cada item respondido, é o que eu chamaria de um começo auspicioso para uma estada em hotel.
"O senhor quer estar subindo?", perguntou o recepcionista, em telemarketês fora de hora e lugar, despertando-me do transe moët-chandoniano. Ah, sim, claro. O elevador, acionado pela chave magnética do quarto, subiu seis andares e se abriu para um corredor de paredes negras, teto negro e carpete idem. Um breu proposital -- feito para contrastar ao máximo com a luminosidade e a leveza do quarto, com suas paredes brancas, seu chão de madeira clara e sua enorme janela-caroço descortinando a paisagem mais rara de São Paulo: o verde (do Parque do Ibirapuera, nos apartamentos de frente, ou do bairro chique do Jardim Paulistano, nos fundos).
A decoração, assinada por João Armentano, parece querer lembrar ao hóspede mais distraído que sim, de fato, não tenha dúvidas, estamos no século XXI. A TV é retangular, com tela modelo plasma, ligada a seu próprio DVD. Uma divisória de vidro fosco esverdeado faz as vezes de móvel de TV e... luminária. Caso você -- como eu -- continue implicando com a redondeza da janela, é só apertar um comando, e zapt: uma parede deslizante de madeira esconde o caroço gigante. Aperte uma outra tecla, e zupt: a janela de vidro do banheiro se levanta, para você poder assistir a um DVD sem sair do quentinho borbulhante da sua Jacuzzi. É possível passar uma boa meia hora apenas descobrindo os mimos espalhados aqui e ali: os produtos L'Occitane no toucador; as Havaianas brancas no armário; a ducha gigante, daquelas de sauna, no box; os cabides climatizados que deixam as toalhas permanentemente aquecidas; o spray-borrifador de água mineral para levar para a piscina, na cobertura.
Ah, a piscina. Nada menos do que "a melhor piscina de 2003" na opinião da revista britânica Wallpaper*, a bíblia do hype globalizado. O deck de madeira rústica, os colchões cor-de-rosa, as pastilhas vermelhas da piscina e os alto-falantes que funcionam debaixo d'água têm lá o seu charme, mas dessa vez quem surpreende na cenografia, por incrível que pareça, é a cidade de São Paulo. Dali se tem a vista mais fotogênica da capital: o skyline de concreto e vidro da região da Avenida Paulista, rodeado pelo verde vale dos Jardins. Se o visitante estrangeiro tiver seus olhos vendados no aeroporto e só retirar a venda na piscina do Unique, vai pensar que São Paulo é linda.
Jonas Siaulys, o jovem empreendedor do Hotel Unique, nunca trabalhou antes com hotelaria. Assim como outros empresários brasileiros que construíram hotéis fora-de-série (como o Emiliano, em São Paulo; o Txai, em Itacaré; o Nannai, em Porto de Galinhas; e o Ponta dos Ganchos, em Santa Catarina), Siaulys é um viajante que resolveu construir no Brasil um hotel como aqueles em que costumava se hospedar no exterior. No seu caso, hotéis-boutique, com design de vanguarda, serviço personalizado e áreas sociais bochinchadas. "Me inspirei no Mondrian de Los Angeles, no Blake's de Amsterdã e no Mercer de Nova York", revelou-me, por e-mail, na semana seguinte à minha hospedagem. Tratam-se de modelos bem distintos, mas é possível identificar suas influências. Do Mondrian, desenhado pelo celebradíssimo Philippe Starck, o Unique tem os espaços grandiosos, a iluminação teatral e a piscina emoldurada pela cidade. Assim como o Blake's, de Anouska Hempel, o Unique não tem medo de misturar o ultra-moderno com um ou outro toque rococó. E se o Mercer tem o Kitchen, o restaurante prêt-à-porter do estrelado chef Jean-Georges Vongerichten, o Unique tem o Skye -- que democratiza o talento do aclamado Emmanuel Bassoleil (pratos a partir de 25 reais, que tal?).
Dividindo a cobertura com a piscina, o Skye chega a ter filas de espera de duas horas, à noite. Não para quem, como eu, está hospedado no hotel, e chega pelo elevador certo -- aquele que só é acionado pela chave magnética do quarto. A freqüência é pra lá de eclética: de gringos de bermuda a patricinhas de salto alto, passando por toda a fauna e a flora do universo da moda. Antes mesmo do segundo gole da minha caipiroska de lima-da-pérsia, minha mesa já está liberada. A cozinha, aberta, funciona como um cardápio visual: à direita, os sushimen do Sushi Kin cortam peixe cru; no centro, Emmanuel Bassoleil finaliza seus pratos; à esquerda, discos de pizza entram e saem do forno. Quase peço o "Risoto PF" (com feijão fradinho, queijo de coalho, carne-seca, couve, farofa e banana com crosta de castanha), mas resolvo experimentar uma das pizzas cheias de bossa inventadas pelo chef francês. Não me arrependo: com a "Merguez & Co." (tomate, couscous marroquino e minicostelinhas de cordeiro com osso e tudo) Bassoleil consegue fazer o Mediterrâneo inteiro caber numa pizza.
No dia seguinte, no café da manhã, a bordo de um cappuccino servido numa xícara enorme, dedico meus últimos instantes no hotel a meditar sobre a relação custo x benefício. A 750 reais a diária, o Unique não é exatamente uma pechincha. Mas se você encarar o hotel como uma viagem em si, e aproveitar todos os brinquedos do parque de diversões -- entrar na Jacuzzi para ver DVD, ouvir música debaixo d'água na piscina, jantar no Skye sem amargar na fila de espera --, vale. Qual foi a última vez que você dormiu numa intervenção urbana?
Hotel Unique. Av. Brigadeiro Luís Antônio, 4700, São Paulo. Tel.: (11) 3055-4710. Site: www.hotelunique.com.br. Diárias (casal) a partir de R$ 750.
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