A LUA-DE-MEL MAIS ROMÂNTICA DO MUNDO
por Ricardo Freire
(Matéria publicada originalmente em Viagem & Turismo, em junho de 2003)
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Lua-de-mel II, o retorno
A segunda lua-de-mel a gente nunca esquece. As crianças cresceram, as carreiras profissionais estão estabelecidas, a prestação do apartamento não assusta mais. Chegou a hora de dizer, de novo: “Enfim, sós”.
Não é que da primeira vez não tenha sido bom -- da primeira vez foi ótimo. Mas desta vez vai ser diferente. Na primeira lua-de-mel fazemos de conta que saímos por aí para conhecer lugares, culturas, igrejas, drinques, museus, praias, monumentos, mas na verdade saímos por aí para conhecer a nós mesmos, agora em nova formação. Por mais que já tenhamos viajado juntos mil vezes antes de oficializar a coisa toda, a primeira lua-de-mel é, acima de tudo, o primeiro capítulo do casamento. A continuação da cerimônia, por assim dizer.
Já a segunda lua-de-mel não provoca ansiedade nem frio na barriga. Não faz parte de nenhum rito religioso nem responde a nenhuma pressão da sociedade. Não é uma viagem de autoconhecimento: é uma viagem de celebração. Até porque -- se você pensar -- chegar à segunda lua-de-mel é muito mais complicado do que chegar à primeira. Mas pelo menos uma coisa as duas têm em comum: a extravagância. O que diferencia a segunda lua-de-mel de todas as outras viagens a dois que fizemos e faremos depois de casados é que a segunda lua-de-mel, necessariamente, obrigatoriamente, incontornavelmente precisa ser feita em grande estilo. Conforme vamos demonstrar.
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Destinos cruzados
Depois de adiar a troca dos carros (inclusive o do Júnior) por mais um ou dois anos, o passo seguinte é escolher o destino. Um bangalô sobre o mar em Bora Bora? De Nova York a Londres a bordo do Queen Elizabeth II? Um carro na Provence, e o telefone de meia-dúzia de relais-châteaux? Um safári na África, hospedados naquelas tendas que custam mais caro que o Ritz de Paris? Podemos retornar a lugares aonde fomos na primeira lua-de-mel (um movimento arriscado, a não ser que se volte em condições bem mais confortáveis). Ou fazer, enfim, a viagem que tínhamos sonhado originalmente -- mas que, por uma razão ou outra, não conseguimos, na época.
As possibilidades são infinitas. Mas... aceitam uma sugestão? Na segunda lua-de-mel, o melhor é fazer algo que definitivamente não teríamos feito na primeira. Nem tanto por ser caro ou exótico demais -- mas por ser careta e pouco próprio a recém-casados. Uma viagem assim como... uma noite a bordo do mitológico Orient-Express, o trem de luxo que há quase 120 anos é sinônimo de classe, romance e exotismo (eu falei exotismo, com “x”).
Todas as semanas entre o fim de março e o início de novembro, o Orient-Express vai de Londres a Veneza, via Paris. Impossível achar um roteiro mais chique do que esse. Mas... só por curiosidade, não vamos parar na primeira página do catálogo promocional. Se continuarmos a folhear os itinerários, vamos descobrir que, de vez em quando, o Orient-Express segue viagem até Florença e Roma. Que, uma vez por ano, ele chega até o seu destino original, Istambul. E que, em quatro oportunidades especialíssimas -- em maio, junho, setembro e outubro -- o Orient-Express desfila sua nobreza entre Veneza e Praga. Veneza e Praga? Ai meu Deus do céu. As duas cidades mais românticas do mundo, unidas pelo trem mais romântico do mundo? Está decidido. Segunda lua-de-mel, aí vamos nós.
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Bellini e Spriss
Esqueça a Veneza que você (e eu, e todo mundo) conheceu naquele primeiro (e fundamental) périplo pelas cidades clássicas da Itália. Visitada separadamente, sem que nossos olhos estejam embotados de Roma e Florença, Veneza é outra cidade -- ainda mais exótica e sedutora. Ou seria a memória de outras viagens, que só agora é capaz de reconhecer em Veneza a porta mais civilizada para o Oriente?
Estratégia para um casal em segunda lua-de-mel em Veneza. Investir 150 dólares num motoscafo (lancha motorizada) entre o aeroporto e a cidade (é caro, mas é preciso já ir ensaiando os personagens para o Orient-Express). Fugir das multidões, procurando se perder de propósito nas ruas sem lojas nem turistas de San Polo e do Dorsoduro. Passar no Harry’s Bar para trocar impressões sobre o autêntico Bellini (prosecco e suco de pêssego) -- mas também sair do sério e tomar um pilequinho de spriss (vinho branco com Campari, club soda e casca de limão) em qualquer baccaro (o boteco veneziano por excelência). Investir mais 150 dólares num passeio de gôndola (se não for agora, não vai ser nunca mais). Ah, sim: e ligar para o escritório do Orient-Express com 48 horas de antecedência para reconfirmar a sua viagem.
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Bienvenue à bord
O embarque está marcado para as 19h10 -- mas às 17h30 a fila já é grande no balcão especial do check-in do Orient-Express na estação Santa Lucia. Os passageiros obviamente não se conhecem, mas se observam e se cumprimentam como se estivessem chegando a uma festa. De fato, o Orient-Express não é mesmo uma viagem: é uma espécie de réveillon permanente e itinerante.
“You can never be overdressed on the Orient-Express”, diz o manual de instruções do passageiro (numa tradução livre: “você nunca estará produzido/produzida demais no Orient-Express”). Mas é preciso que a produção caiba nas malas de mão -- porque as malas grandes ficam inacessíveis durante toda a viagem. Talvez por isso algumas mulheres já estejam de longo antes mesmo de embarcar. Damos uma geral na fila. Quantos daqueles casais estariam em segunda lua-de-mel? Conclusão: tirando a excursão de japoneses, todos.
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Nos trilhos da história
Hoje o Orient-Express pode ser praticamente uma festa à fantasia, mas durante seus primeiros 50 anos -- de 1883 até o estouro da Segunda Guerra Mundial -- seus suntuosos vagões serviram realmente como meio de locomoção entre um lugar e outro. Operado pela Compagnie Internationale des Wagons-Lits et des Grands Express Européens (o próprio nome já é extenso e chique como um trem de luxo), o Orient-Express desbravou fronteiras a leste e unificou a malha ferroviária européia num momento em que isso parecia diplomaticamente impossível. Ao mesmo tempo, definiu um padrão de luxo que jamais seria igualado por nenhum outro tipo de, digamos assim, transporte coletivo.
O fim da Segunda Guerra viu implantar-se o comunismo em boa parte do território coberto pelo Orient-Express; do lado de cá da Cortina de Ferro, a invenção do jato -- e conseqüentemente, o aparecimento do jet set -- acabou desglamourizando a viagem ferroviária (pensando bem, nunca houve mesmo a expressão “train set”). Ao fazer sua última viagem, em maio de 1977, o Orient-Express usava vagões comuns -- e era tão utilitário quanto um Itapemirim leito.
Sua mística só começou a ser revivida quando, ainda em 77, James Sherwood arrematou vários antigos vagões de luxo no leilão da massa falida da Compagnie International des Wagons-Lits, em Mônaco. Depois disso, ele se pôs a procurar pelos confins da Europa outros vagões originais da companhia. Impecavelmente restaurados, eles voltaram à ativa em 1982, sob o nome Venice Simplon Orient-Express.
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Uma festa móvel
Franz, o valete do nosso vagão, é extremamente jovem -- e extremamente poliglota, também. Ele carrega as nossas malas de mão e nos conduz à nossa cabine. Construído em 1910, o compartimento é relativamente pequeno, revestido com lambris laqueados; a estampa da cortina combina com a do estofado. O mobiliário consiste em um estofado inteiriço de espaldar alto (que Franz transformará em dois beliches durante o jantar), uma mesinha retrátil, um prosaico abajur lilás (está bem: cor-de-rosa) e uma penteadeira embutida, com pia e água quente e fria. Antes que perguntemos, Franz explica que o toalete fica... no final do vagão. (E, antes que você pergunte: o chuveiro... ahn... não tem. Banho de verdade, só no próximo hotel.)
Mas ninguém embarca no Orient-Express para ficar na cabine. Sem trocar de roupa, vamos direto ao vagão-bar, onde um sujeito toca standards ao piano e os casais em segunda lua-de-mel pedem suas primeiras taças de champagne. Quem diria, hein? Nós dois tomando champagne no vagão-bar do Orient-Express! O amor é lindo. O amor é duradouro. Nossas caras-metades nunca foram tão caras.
O jantar é servido em três vagões-restaurantes decorados com aquela elegância pesada dos grandes restaurantes franceses. As cadeiras são revestidas com veludos de cores fortes -- verde-escuro, bordô, azul-petróleo; as paredes têm lambris laqueados e trabalhados em marchetaria, e são enfeitadas aqui e ali com objetos e luminárias Lalique. Sobre as mesas, porcelana de Limoges, copos de cristal, talheres de prata, um vaso de flores -- e o mesmo abajur lilás (está bem: cor-de-rosa) da cabine. Vocês escolhem entre dois horários, voltam à cabine, colocam o smoking e o longo e... bem, tem gente que coloca o smoking e o longo. Mas a maioria se veste só como quem vai a um jantar (muito) chique. Entretanto, se você olhar em volta, vai ver que quem vestiu smoking e longo está claramente se divertindo mais.
A comida? Boa, porém normal. Melhor que a de avião, claro. Mas não estamos lá para comer a comida. Estamos lá para sorver o ambiente. Degustar a extravagância. E ficar até altas horas no vagão-bar, entre cafés e digestivos, brincando de relembrar viagens antigas, mais modestas mas nem por isso menos divertidas.
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O day after
Dormir e acordar são os dois únicos pontos mal-resolvidos do Orient-Express. Os ricos e famosos de 1910 deviam ser baixinhos, já que com meu parco 1,70m já me senti um pouco apertado na caminha de cima. Mal acordamos, e já precisamos desocupar a cabine por uns instantes, para que Franz transforme os beliches novamente em poltronas e possa então servir o café no “quarto”.
Na hora do almoço já somos veteranos de Orient-Express, e já nos divertimos mais com a pompa, a circunstância e as últimas gentilezas dos garçons na esperança de boas gorjetas. Depois de vinte horas brincando de deslumbrados, estamos mais pobres e mais felizes. Na plataforma da estação de Praga, os chefes da tripulação perfilam-se e recebem os cumprimentos dos passageiros que se despedem. A nossa sensação é a de ter acabado de sair de um baile que durou até depois do almoço. Deus, como eu preciso de um banho.
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Na Manhattan do Barroco
A seqüência Veneza - Orient-Express - Praga faz muito bem a Praga. Você fica com a certeza de que sua beleza é absoluta -- e não uma beleza forjada na comparação com Budapeste ou Viena. O fim do comunismo pode ter trazido as hordas de turistas, mas também trouxe hotéis confortáveis e bons restaurantes -- e, o que é mais importante, não acabou com a excelente (e baratíssima) cerveja.
Estratégia para um casal em segunda lua-de-mel em Praga. Acordar no primeiro dia e ir à Ponte Carlos antes mesmo de tomar café-da-manhã (é o único jeito de ver a Ponte Carlos vazia, em todo o seu esplendor). Perambular de tardezinha por Malá Strana, o bairro medieval ao pé da ponte. Jantar em todos os restaurantes da rua Parizká (que une a Praça da Cidade Velha ao Cemitério Judeu) -- o melhor deles é o Pravda, de comida fusion. (Sim, já tem comida fusion em Praga.)
Uma coisa é certa: a vista do nosso quarto no Four Seasons, para o rio Vltava e o morro do Castelo, era dessas coisas que fazem um casal em segunda lua-de-mel... ficar fazendo planos para uma terceira.
Ricardo Freire
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