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  Londres
  Londres para quem

não gosta de Londres

 

 

por Ricardo Freire

 

(Matéria publicada originalmente na revista Vip em maio de 2001)

 

 

Sim, eu já escrevi essa matéria antes. Só que era sobre Paris, lembra? Faz três meses. Aproveitei para listar uma dezena de lugares moderninhos e cosmopolitas, onde até pessoas com software incompatível com Paris acabariam se sentindo à vontade.

 

Agora eu volto à carga, me dirigindo aos turrões e insensatos que não se deixam seduzir por Londres. Pessoas de gênio difícil e gostos duvidosos. Pessoas assim como eu. Sim, amigo leitor, eu nunca gostei de Londres. Meu coração sempre se manteve fiel ao lado de lá do Canal da Mancha. Durante uma década e meia cultivei por Londres uma desafeição toda especial. Folclórica, até. Eu gostava de não gostar de Londres.

 

Mas eu pergunto: por acaso eu tinha dado alguma nova chance de verdade a Londres, desde o nosso primeiro encontro, em 1985 (praticamente na encarnação passada)? De onde é que uma pessoa como eu tirou a idéia de que Londres continuaria a vida inteira num astral pós-punk? Pois bastou um mísero carnaval à beira do Tâmisa para eu ver o que estava perdendo. Como você já deve saber há bem mais tempo do que eu, Londres virou uma cidade “pra cima”, onde o design de boa qualidade impera e até a gastronomia é atraente. Como você pode ver a seguir, corri para tirar o atraso...

 

Oxo Tower Brasserie: Terraço Itália, London style

No terraço de uma torre art-déco recentemente restaurada, à beira do Tâmisa, aqui você tem a melhor vista de Londres a partir da mesa de um restaurante: dali se vê a catedral de São Paulo, a Millenium Bridge -- e, esticando o pescoço, também a London Eye, a roda-gigante futurista que é o novo logotipo de Londres. A comida é moderninha (como em quase todo lugar...), a cargo do mesmo grupo que toca o restaurante Fifth Floor, da loja de departamentos badaladinha Harvey Nichols. Existe também um Oxo Tower Restaurant, mas a Brasserie é mais em conta; o menu a preço fixo do almoço sai 30 dólares.

Oxo Tower Wharf, SE1. Tel.: 020 7803-3888. Aberto das 12h às 15h30 e das 17h30 às 23h30 (até 22h30 no domingo). Metrô: Waterloo.

 

The Real Greek: também para troianos

O primeiro restaurante grego festejado da história da crítica gastronômica mundial, este Real Greek está em todas as listas de lugares “hot” de Londres. Fica num quadrante feioso de Londres (que você nunca visitaria), atrás de um Holiday Inn. O ambiente é charmosamente despojado, e a comida, de uma leveza que você não esperaria da cozinha grega. No almoço (e no jantar, até às 19h), você pode pedir dois pratos por 22 dólares. Ah: a carta de vinhos é de verdade (nada de retsina).

15 Hoxton Market, N1. Tel.: 020 7739-8212. Aberto das 12h às 15h e das 17h30 às 22h30. Fecha domingo. Metrô: Old Street.

 

Incognico: sou duro mas sou gourmet

Nico Ladenis é um dos chefs mais conceituados de Londres. Ano passado, resolveu adicionar ao seu Chez Nico um segundo endereço, para bolsos e apetites mais comedidos. No Incognico -- em Covent Garden, praticamente em frente ao teatro onde passa Les Misérables -- você almoça uma impecável comida de bistrô por módicos 18 dólares (incluindo entrada, prato e sobremesa). O preço camarada do almoço também vale para o jantar, mas só até às 19h.

117 Shaftesbury Ave., WC2. Tel.: 020 7836-8866. Aberto das 12h às 15h e das 17h30 à meia-noite. Fecha domingo. Metrô: Leicester Square.

 

Bluebird: café-deli-brasserie-feira-ponto de ônibus

Instalado num ponto final de ônibus (desativado, bem entendido), na King’s Road, o complexo Blue Bird tem o toque genial de Sir Terence Conran, o rei do design e da gastronomia pop da Inglaterra. Num só lugar você pode fazer feira, comprar vinhos, tomar um expresso, traçar uma dúzia de ostras ou almoçar a sério. Tudo com muito charme e a preços razoáveis (25 dólares por três pratos no almoço). Extremamente recomendável como pit stop depois de uma caminhada por King’s Road (volte por Fulham Road até Knightsbridge).

350 King’s Road, SW3. Tel.: 020 7559-1000. Restaurante aberto das 12h às 15h30 e das 18 às 23h. Metrô: Sloane Square (mais uma bela caminhada por King’s Road).

 

River Café: o pioneiro

Primeiro restaurante de Londres a fazer muito sucesso com a cozinha mediterrânea “californizada” (numa época em que todos os ingredientes ainda precisavam ser importados), o River Café continua difícil de reservar, apesar de não estar mais exatamente na crista da onda. De dia você avista o Tâmisa, mas de noite fica mais fácil ver de onde vem a inspiração do layout do boxixado Spot paulistano. Conte em gastar 100 dólares por pessoa (mais o táxi, que não é barato até aquele fim de mundo).

Rainville Road, Thames Wharf, W6. Tel.: 020 7381-8824. Aberto das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h (domingo só almoço). Sem metrô perto.

 

Zaika: nouvelle indiano

No tempo em que eu não gostava de Londres, a única coisa de que eu gostava em Londres eram os restaurantes indianos fuleiros. Pois muito bem: depois que fizeram sua revolução gastronômica, os londrinos mais frescos agora esnobam as “curry houses”, e só querem saber dos indianos com sotaque nouvelle cuisine. Este Zaika, com decoração ocidental e à meia-luz, tem pratos refinados, sem os excessos de tempero do indiano da esquina. (Se bem que eu acho que prefiro o indiano da esquina.)

257 Fulham Road, SW3. Tel.: 020 7351-7823. Aberto das 12h às 14h30 (segunda a sexta) e das 18h30 às 22h30 (segunda a sábado). Metrô: South Kensington.

 

Blue Print Café: haja vista

Outro dos (dezoito!) restaurantes de Sir Terence Conran espalhados por Londres. A comida é a de sempre -- leve, mediterrânea na preparação, com um ou outro toque exótico -- mas a vista é especial: instalado numa sobreloja, dali se tem a melhor vista da London Bridge dentre todos os restaurantes do shopping gastronômico Butler’s Wharf. Ótimo para um almoço depois de uma visita ao simpático Design Museum.

Butler’s Wharf, SE1. Tel.: 020 7378-7031. Aberto das 12h às 15h e das 18 às 23h (domingo só jantar). Metrô: London Bridge.

 

I-Thai: tarantella do tailandês doido

Piração total: um restaurante que mistura comida italiana com tailandesa. Coisas do Hempel, o mais minimalista dos hotéis metidinhos de Londres. O resultado não é lá essas coisas -- tirando algumas massas com molhos orientais, quase todos os pratos são thai-ma-non-troppo. O cenário, no entanto, é impressionante -- nenhuma cor além de branco e preto, iluminação perfeita. Para levar sua namorada arquiteta.

31-35 Craven Hill Gardens, W2. Tel.: 020 7298-9000. Aberto das 12h às 14h30 e das 19h às 23h. Metrô: Lancaster Gate.

 

Denim: happy hour anos 70

É imprudente indicar bares ou lugares da moda em Londres, tal a velocidade com que eles abrem e fecham. Este Denim, em Covent Garden, é uma exceção -- é bem freqüentado já há um tempinho. O ambiente é futurista, de acordo com a concepção de futuro que se tinha nos anos 70.

4A Upper St Martin's Lane, WC2. Tel.: 020 7497-0376. Aberto do meio-dia à 1h da manhã (domingo das 15h à meia-noite).  Metrô: Leicester Square.

 

Belgo Centraal: fritas acompanham

Mexilhões, fritas, cerveja belga: precisa mais? Mas  Belgo Centraal, o endereço da rede Belgo em Covent Garden, ainda oferece um cenário divertido, num porão com jeitão industrial e mesas enormes. O almoço é uma pechincha, a 9 dólares (mexilhões + salada). À noite, salada, mexilhões, fritas e cerveja saem a 25 dólares.

50 Earlham St., WC2. Tel.: 020 7813-2233. Aberto das 12h às 23h30 (até 22h no domingo). Metrô: Covent Garden.

 

Asia de Cuba: pina sakê colada

A crítica detesta. Mas o Asia de Cuba é o meu restaurante favorito no mundo. Misturando Oriente com América Latina, sua comida é a mais original que você pode encontrar onde quer que seja. A matriz fica no Morgan’s, em Nova York; a filial de Londres fica em outro hotel de Ian Schrager, o St. Martin’s Lane. Aqui, em vez dos painéis fotográficos kitsch na parede, o cenário é uma biblioteca “fake”. Não deixe de passar no bar, outra fantasia em pink e verde-limão de Philippe Starck.

45 St. Martin’s Lane, WC2. Tel.: 020 7300-5588. Aberto das 12h às 15h (segunda a sexta) e das 17h30 à meia-noite (domingo até às 22h30). Metrô: Leicester Square.

 

Hotéis: chame o FMI

Londres é o maior antro de hotéis moderninhos do Ocidente. O problema é que, se tudo em Londres é caro (a libra não acompanhou a desvalorização das moedas da zona do euro, e continua valendo um dólar e meio), hospedagem em Londres é um abuso ao bom-senso. Mas se você for um gourmet de hotéis, encerre sua temporada londrina com uma ou duas noites num dos hotéis listados aqui embaixo. O One Aldwych, no coração do West End (o bairro dos teatros e dos restaurantes que abrem até mais tarde), é o mais premiado dos novos hotéis londrinos. O St. Martin’s Lane e o Sanderson são as duas extravagâncias de Ian Schrager e Philippe Starck em Londres; o St. Martin’s Lane é mais engraçado e bem localizado, enquanto o Sanderson é um (bem-sucedido) exercício de esquisitice num prédio feio dos anos 60. O Hempel, que funciona em casas vitorianas geminadas perto do Hyde Park, é um templo do minimalismo -- se você odeia cores e frescuras, vai querer morar aqui. Já quem gosta de ambientes românticos e fofinhos (sua namorada, por exemplo), vai adorar o Covent Garden Hotel. E, finalmente, se você tem 300 dólares por noite para investir num hotel bacaninha, mas sem frufrus (fora o fato de ter sido construído e decorado segundo os preceitos Feng Shui...), fique com o Myhotel Bloomsbury, pertinho de Covent Garden e do SoHo.

One Aldwych: fax (44) 20 7402-4666. Doubles desde 480 dólares. Internet: www.onealdwych.co.uk.

St. Martin’s Lane: fax (44) 20 7300-5501. Doubles desde 380 dólares. Internet: www.ianschragerhotels.com.

Sanderson: fax (40) 20 7300 1401. Doubles desde 440 dólares. Internet: www.ianschragerhotels.com.

The Hempel: (44) 20 7402-4666. Doubles desde 430 dólares. Internet: www.small-hotel.com/hempel.

Covent Garden: fax (44) 20 7806-1100. Doubles desde 360 dólares. Internet: www.firmdale.com/covent.html.

Myhotel Bloomsbury: fax (40) 20 7667-6000. Doubles desde 300 dólares. Internet: www.myhotels.co.uk.

 

 

Ricardo Freire

 

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