Playa del Carmen,
a anti-Cancún
por Ricardo Freire
(Matéria publicada originalmente em Vip, em junho de 2002)
A apenas 8 horas de vôo (São Paulo-Cancún), a Riviera Maia é o pedaço de Caribe mais próximo do Brasil. E que pedaço: são 200 km de praias impecáveis, que já vêm de fábrica com aquele azul-turquesa de pôster de agência de viagem, e são perfeitas para nadar, mergulhar e velejar. Exatamente no centro geográfico da Riviera fica um vilarejo desconhecido dos brasileiros, mas muitíssimo bem freqüentado por americanas desencanadas, canadenses descoladas e italianas de topless: Playa del Carmen.
Para ir a Playa del Carmen é preciso passar por Cancún. Para escrever sobre Playa del Carmen, também. Mas prometo ficar poucas linhas nesta escala. Rapidinho: assim como a gravidez e outros estados interessantes, Cancún não admite meio-termo. Ao visitar a capital do Caribe mexicano, você será acometido irremediavelmente por uma das seguintes impressões:
(1) ¡Caramba! Cancún é o paraíso na Terra! Um hotel luxuoso do lado do outro, com uma praia maravilhosa em frente, e um monte de shoppings legais, cheios de lojas bacanas e bares animados e megadanceterias!
(2) ¡Caramba! Cancún é o inferno na Terra! Um hotel monstruoso do lado do outro, estragando uma praia maravilhosa, tudo cercado por shoppings sem-graça, repletos de bares plastificados e danceterias gigantescas!
Caso você se imagine na alternativa (2), então Playa del Carmen é a sua... praia. Porque Playa del Carmen está para Cancún assim como o Arraial d’Ajuda está para Porto Seguro. São apenas 70 km de distância, mas parecem dois planetas distintos.
Praia selvagem e Quinta Avenida
Até há poucos anos, Playa del Carmen era apenas um vilarejo de pescadores, cujo apelo turístico se limitava ao píer de embarque para a linha de ferry-boat que liga o continente à ilha de Cozumel. Os mochileiros (como sempre) foram os primeiros a espichar o olho para aquela praia espetacular, onde não faltavam lugares à beira-mar para se tomar uma Dos Equis estupidamente incrementada por um gomo de limão no gargalo. As pousadas e hoteizinhos não tardaram a se multiplicar, atraindo também um turista que não queria ficar confinado nos resortões de Cancún.
Hoje ‘Playa’ (para os íntimos) cresceu tanto, que pode ser dividida em três zonas. O centro da cidade -- um corredor que leva ao píer de embarque a Cozumel -- virou um mar de lojinhas bagaceiras de souvenir. Ao sul, um condomínio elegante, Playacar, tenta fazer de conta que trouxe Beverly Hills para o México. Mas a parte de Playa del Carmen que nos interessa está na ponta norte, onde ficam as pousadas charmosas e as praias mais ou menos selvagens.
O coração alternativo de Playa bate na Quinta Avenida (o Arraial d’Ajuda não tem a Bróduei? Pois então), a ruazinha que concentra os restaurantes transados, os bares bacanas e as lojas interessantes, principalmente entre as ruas 8 e 14. Ande duas quadras para baixo e você chega à prainha central da vila, um tanto quanto bagunçada, crowdeada de botecos e pousadinhas que dão direto na areia. Continue caminhando na direção norte (esquerda), e em dez minutos você chega ao trecho da praia onde vale a pena passar o dia -- sem hotéis acintosos à vista, com espreguiçadeiras para alugar e européias para azarar. Mais dez minutos de caminhada pela areia, e depois de uma curva você está em Chenzunbul (ou Playa Coco), que é selvagem de tudo.
Quando cansar de descansar, você pode pegar o ferry e conhecer Cozumel (alugue um carrinho de golf, que é o melhor meio de transporte na ilha). Ou então, pode alugar um carro e explorar o resto da Riviera Maia. Dá para pegar outras praias (a mais bonita é Paamul), visitar ruínas (Tulum, que tem uma pirâmide debruçada no mar, fica a uma hora de viagem), mergulhar em cavernas (os ‘cenotes’, cavernas submarinas típicas da região, têm toda a estrutura para mergulhar de garrafa) e passar o dia numa reserva biológica (Sian Ka'an, ao sul de Tulum, é patrimônio ambiental tombado pela Unesco). Ou ainda bater ponto nos parques de diversão ‘ecológicos’ que são vendidos para o turista que está em Cancún (X-caret, Xel-Há, Tres Ríos), mas que na verdade ficam muito mais perto de Playa.
Ficar, comer, chegar, esticar
Playa tem de tudo para todos: desde resorts “cancunianos” no loteamento Playacar até pousadas vagabundérrimas para durangos e ripongas. Os hoteizinhos mais bacanas são o Deseo (www.hoteldeseo.com, fax: 52-984-879-3621, doubles desde US$ 120), um hotel-design localizado na esquina mais bochinchada da Quinta Avenida, e o Mosquito Blue (www.mosquitoblue.com, fax: 52-984-873-1337, doubles desde US$ 100), que mistura Grécia com Sudeste Asiático (com surpreendentes bons resultados).
O melhor restaurante de comida regional é o Yaxche (Calle 8, entre 5a. e 10a. Avenidas, tel.: 873-2502). Massas com molhos criativos é no Media Luna (5a. Avenida, entre Calles 8 e 10, sem telefone). O café da manhã mais gostoso é servido sob a copa de árvores frondosas no 100% Natural (5a. Avenida, entre Calles 10 e 12, tel.: 883-2244). Um lugar para começar a noite (e se informar sobre o que vai rolar) é o badalado lounge do Hotel Deseo.
Evite ir entre agosto e outubro, quando pode haver furacões. A alta temporada vai de dezembro a fevereiro, com repique em julho. Ônibus de hora em hora ligam o aeroporto de Cancún a Playa del Carmen (passagem: 10 dólares). Deixe para alugar seu carro em Playa, aproveitando as promoções (eu morri com 150 dólares por dia num compacto automático alugado no Brasil -- enquanto na Quinta Avenida havia ofertas de subcompactos manuais por 35 dólares). Você pode aproveitar a mesma viagem para explorar o resto da península de Yucatán (as ruínas de Chichén-Itzá, a cidade colonial de Mérida, as praias desertas de Campeche) ou então para dar um pulinho em Cuba (há dois vôos diários de Cancún a Havana, com uma hora de duração).