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Jericoacoara: 

A força dos elementos

 

 

 (E) Praia da vila - (D) Pôr-do-sol visto da duna

 

 

 

 

 

 

 

 

"Uma das 10 praias mais bonitas do mundo". É infalível: tudo quanto é  reportagem -- até mesmo esta, que tenta ser diferente de tudo quanto é reportagem -- repete a célebre afirmação da revista do Washington Post. Pena que ninguém se dê ao trabalho de explicar que Jericoacoara não é uma praia no sentido balneário do termo, uma praia de guarda-sol e espreguiçadeira, de olha o limão e mate!, de queijo de coalho e frescobol. Não. Antes de ser uma praia, Jericoacoara é uma experiência. Estar permanentemente exposto aos elementos -- o sol, o vento, a areia que viaja, imperceptível, para mudar as dunas de lugar -- é parte fundamental dessa trip.

 

Jeri é bela, belíssima, justamente por fugir dos padrões de pôster de agência de viagem. De novo, não se trata de uma beleza fácil, de coqueiro alto e areia branca e mar transparente. A beleza de Jeri está na imponência de sua duna em forma de meia-lua desafiando o oceano em frente. A beleza de Jeri está em você não saber se é o sertão que vai virar mar ou se é o mar que vai virar sertão.

 

 Lagoa Azul

(E aquelas fotos de areia branquinha e água caribenha que de vez em quando aparecem como sendo a “praia”  de Jericoacoara? Na verdade, são as lagoas de Jijoca -- a meia hora de jardineira da sua pousada.)

 

Os bugueiros que me perdoem, mas não existe programa melhor em Jeri do que... ficar parado e contemplar Jeri. Assim como acontece com o Taj Mahal e outros monumentos esotéricos, a energia ali é diferente a cada hora do dia. A intensidade do sol e o ângulo de incidência da luz fazem a grande duna mudar de cor -- do cinzento ao branco ao dourado ao cor-de-rosa. O movimento das marés é radical -- uma hora a praia enche muito e o mar chega quase até a duna; outra hora a a praia seca tanto que os barquinhos ficam ancorados no deserto. Quem passa o dia inteiro passeando nos arredores acaba perdendo o espetáculo que é Jeri.

 

Quando bater aquela vontade de pegar uma praia no sentido mais tradicional da palavra, contrate um bugue ou pegue a jardineira, e vá passar o dia nas lagoas de Jijoca, a 20 km. Na verdade, trata-se de uma lagoa só, que enche com a água das chuvas (entre janeiro e junho) e acaba se dividindo em duas durante o verão cearense (de julho a dezembro). O ano inteiro, entretanto, os nomes Lagoa Azul e Lagoa do Paraíso designam duas margens mais ou menos opostas da lagoa. Nas duas, a areia é branquíssima -- e a água, azulzíssima, transparente no rasinho. O contraste entre o deserto de Jeri e o oásis das lagoas não poderia ser maior. É como tirar duas férias numa viagem só.

 

Desde setembro de 2002 o acesso está mais fácil -- o caminho foi inteiramente asfaltado até a vila de Jijoca. Lá você deixa seu carro ou desce do ônibus e então embarca numa jardineira ou numa caminhonete para os 22 km finais atravessando o deserto -- que é o jeito mais emocionante de chegar. (Já os jipões 4x4 que fazem o traslado preferem cortar caminho pela praia do Preá, chegando a Jeri pela costa. É mais rápido, porém menos interessante.)

 

  Centro de Jeri

Ao contrário do que era de se esperar, o asfalto não escancarou Jeri para o turismo de massa. Não sei se isso tem a ver com a crise brasileira, mas nas minhas últimas visitas tenho percebido que Jeri parou de ser vendida para as pessoas erradas. Quem eram, ou quem são, as pessoas erradas? Os pobres coitados que viajam para o Ceará em pacotes convencionais e que são arrancados do conforto de seus hotéis quatro-estrelas em Fortaleza para viver uma experiência cansativa e apressada numa megapousadinha bregalda de Jeri, e passam 36 horas zanzando de Tatajuba às lagoas. Não faz sentido vender Jericoacoara como um passeio de bugue a mais no Ceará. Felizmente, parece que isso começa a ser entendido.

 

Além do asfalto, outros confortos começam a chegar a Jeri. Ar condicionado não é mais raridade. O bar Rosa dos Ventos tem cybercafé com Internet rápida via satélite. A vila ganhou até seu primeiro hotelzinho internacional: o Mosquito Blue, de um grupo italiano que atua no México, e que é uma prova de como se pode oferecer infra sem partir para a "resortificação". Aliás, não acredite quando você ler por aí que “Jeri agora tem resort”. O resort em questão, o Boa Vista, fica em Camocim -- a uma hora e meia de jardineira para o oeste. Quem se hospeda nele pode até passear uma ou outra vez na vila e nas lagoas -- mas não terá passado suas férias “em” Jeri.

 

 (E) O "guia-frigobar" - (D) Pedra Furada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

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Mais na Internet: Jericoacoara.tur.br